Armazenamento Inadequado (Temperatura)
No complexo processo que garante a qualidade dos exames laboratoriais, o armazenamento adequado das amostras sanguíneas representa uma etapa crucial, porém frequentemente negligenciada. A exposição a temperaturas extremas, seja ao calor excessivo ou ao congelamento, constitui um erro pré-analítico grave que altera irreversivelmente a integridade das células sanguíneas, inviabilizando a obtenção de resultados confiáveis nos exames hematológicos. A manutenção da amostra dentro de uma faixa térmica específica não é uma mera recomendação, mas uma condição essencial para preservar a morfologia e a viabilidade celular até o momento da análise.
O calor excessivo, geralmente resultante da exposição direta ao sol ou do armazenamento em ambientes não climatizados, acelera exponencialmente os processos metabólicos e degenerativos das células sanguíneas. Esta aceleração térmica provoca, em primeiro lugar, a degradação acelerada dos leucócitos, particularmente dos neutrófilos, que começam a apresentar alterações morfológicas como picnose nuclear e vacuolização citoplasmática em um curto espaço de tempo. Simultaneamente, a estabilidade da membrana dos eritrócitos é comprometida, resultando em hemólise significativa. A liberação de hemoglobina no plasma interfere diretamente na dosagem espectrofotométrica deste analito, além de causar uma subestimação artificial da contagem de hemácias. As plaquetas, por sua vez, tornam-se mais susceptíveis à agregação, leading a contagens falsamente baixas.
No extremo oposto, o congelamento da amostra é igualmente devastador. A formação de cristais de gelo no interior das células sanguíneas causa danos mecânicos irreparáveis às suas membranas, promovendo a lise celular generalizada. Uma amostra que foi congelada, mesmo que parcialmente, torna-se completamente inadequada para a realização do hemograma, pois a arquitetura celular é destruída de forma irreversível. Os resultados obtidos de uma amostra congelada e subsequentemente descongelada não possuem qualquer valor clínico, representando um desperdício de recursos e, mais grave, podendo levar a interpretações diagnósticas completamente equivocadas.
O protocolo ideal estabelece que as amostras para hemograma devem ser mantidas em temperatura ambiente (entre 15°C e 25°C) se processadas dentro de 4 a 6 horas. Para armazenamentos mais prolongados, até 24 horas, a refrigeração entre 2°C e 8°C é recomendada para retardar a degeneração celular, embora não a impeça completamente.
O controle rigoroso da temperatura durante o armazenamento e transporte das amostras é um pilar fundamental da qualidade pré-analítica. A exposição a temperaturas inadequadas não representa apenas um desvio protocolar, mas sim uma agressão física direta aos elementos figurados do sangue, transformando uma amostra representativa em um material biologicamente inválido. Garantir a cadeia de temperatura ideal é, portanto, uma obrigação técnica inegociável para qualquer serviço de hematologia que almeje a excelência diagnóstica e a segurança do paciente.

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