"Bombear" ou Contração Vigorosa do Punho
Na prática da coleta de sangue venoso, é comum a instrução para que o paciente realize contrações vigorosas e repetitivas do punho, conhecido como "bombear", na crença de que este procedimento facilita a punção venosa ao promover uma maior dilatação dos vasos. No entanto, a literatura científica especializada e os protocolos de boas práticas laboratoriais, como os estabelecidos pelo Clinical and Laboratory Standards Institute (CLSI), categorizam esta ação como um erro pré-analítico significativo, com repercussões diretas e negativas sobre a precisão dos exames hematológicos.
A premissa de que o bombeamento auxilia na venopunção é, na realidade, contraproducente. Enquanto a aplicação correta do torniquete promove uma estase venosa passiva, a contração muscular ativa desencadeia alterações fisiológicas mais profundas. Cada contração do punho aumenta substancialmente a pressão intramuscular, que por sua vez é transmitida para o sistema vascular local. Este mecanismo não apenas dificulta a palpação de veias mais frágeis, como também acelera e intensifica o processo de hemoconcentração.
A hemoconcentração é o fenômeno central por trás da distorção dos resultados. Ela ocorre quando a pressão hidrostática no interior dos vasos sanguíneos se eleva a ponto de forçar a passagem do plasma, a porção líquida do sangue, para os tecidos intersticiais. O que resta no lúmen vascular, e consequentemente é aspirado para o tubo de coleta, é um sangue com uma concentração anormalmente alta de elementos celulares e macromoléculas que não conseguem atravessar a parede capilar com facilidade, como as proteínas.
O impacto em um exame de hemograma completo é imediato e clinicamente relevante. Os valores de hemoglobina e hematócrito sofrem elevações artificiais, podendo ofuscar o diagnóstico de uma anemia ou simular uma policitemia. Da mesma forma, as contagens de leucócitos e plaquetas são falsamente aumentadas, configurando uma pseudoleucocitose e uma pseudotrombocitose. Para o médico assistente, a interpretação desses resultados alterados pode levar a condutas desnecessárias, como a solicitação de exames complementares mais invasivos ou a instituição de tratamentos inadequados, comprometendo a segurança do paciente e onerando o sistema de saúde.
Portanto, a orientação correta e padronizada é que o paciente mantenha o punho relaxado após a aplicação do torniquete. Se houver dificuldade na localização da veia, a conduta adequada consiste na liberação do torniquete para permitir a re-perfusão do membro, seguida de uma nova tentativa após um breve intervalo. A eliminação da prática de "bombear" o punho não é apenas uma refinamento técnico, mas uma medida essencial de controle de qualidade. Garantir a fidelidade do resultado hematológico exige o reconhecimento de que a integridade analítica começa no momento da coleta, e cada etapa, por mais simples que pareça, deve ser executada com rigor científico.
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