Coleta em Ordem Inadequada dos Tubos

 Coleta em Ordem Inadequada dos Tubos


Na complexa cadeia de processos que compõem a análise laboratorial, a fase pré-analítica destaca-se como a mais suscetível a erros. Entre os procedimentos dessa fase, a ordem de coleta dos tubos de sangue venoso, longe de ser uma mera formalidade operacional, configura-se como uma etapa crítica com impacto direto e decisivo na qualidade dos exames hematológicos. A inversão da sequência padronizada pode introduzir interferências que comprometem a integridade da amostra e a fidedignidade dos resultados.

A lógica que rege a ordem de coleta, estabelecida por organismos internacionais como o Clinical and Laboratory Standards Institute (CLSI), visa prevenir a contaminação cruzada entre os aditivos de diferentes tubos. O risco mais significativo para a hematologia ocorre quando o tubo contendo anticoagulante EDTA, destinado ao hemograma, é coletado após um tubo sem anticoagulante (como os de soro) ou, pior, após um tubo com ativador de coágulo. Durante a coleta, o fluxo sanguíneo através da agulha pode carrear vestígios do ativador de coágulo (como a tromboplastina) do primeiro tubo para o interior do tubo de EDTA subsequente.

Esta contaminação, mesmo que em quantidades mínimas, desencadeia uma cascata de eventos deletéria para a análise hematológica. O ativador de coágulo inicia um processo de coagulação parcial dentro do próprio tubo de EDTA, que deveria manter o sangue integralmente fluido. O resultado é a formação de microcoágulos. Estes coágulos são armadilhas para os elementos figurados do sangue, particularmente as plaquetas, que são sequestradas em agregados. Quando a amostra é processada no analisador hematológico, esses agregados são contados como uma única partícula ou não são detectados na contagem plaquetária, levando a um resultado falsamente baixo, uma condição conhecida como pseudotrombocitopenia.

As consequências clínicas são graves. Um laudo indicando trombocitopenia pode desencadear uma investigação médica extensa e desnecessária, incluindo a repetição do exame, consultas com hematologista e, em casos extremos, até mesmo intervenções terapêuticas inadequadas. Além das plaquetas, os microcoágulos podem também englobar leucócitos, afetando sua contagem diferencial, e liberar debris celulares que interferem na análise de outros parâmetros.

Para mitigar este risco, a sequência universalmente aceita determina que o tubo de cultura sanguínea (se necessário) seja o primeiro, seguido pelo tubo com citrato de sódio (para coagulação), depois o tubo sem anticoagulante (para soro) e, somente então, o tubo com EDTA para hemograma. Esta sequência assegura que qualquer contaminação residual da agulha por ativador de coágulo seja descartada nos tubos iniciais, preservando a integridade da amostra de EDTA.

A ordem de coleta não é uma recomendação burocrática, mas uma salvaguarda técnica essencial. Sua observância rigorosa é um pilar da garantia de qualidade no laboratório clínico, assegurando que os resultados hematológicos reflitam com precisão o estado fisiopatológico do paciente e não artefatos gerados por uma técnica de coleta inadequada. A fidelidade do diagnóstico começa com a primeira gota de sangue no tubo correto.


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