Coleta em Sítio com Infusão Intravenosa
Entre os erros pré-analíticos na coleta de sangue venoso, a obtenção de amostra em um braço que está recebendo infusão intravenosa representa uma falha de protocolo com consequências particularmente graves para a integridade dos exames hematológicos. Esta prática, ainda que por vezes adotada por conveniência em pacientes de difícil acesso venoso, introduz uma variável de contaminação que invalida completamente a representatividade da amostra, fornecendo ao médico uma imagem distorcida e potencialmente perigosa do estado hematológico do paciente.
O princípio fundamental violado neste cenário é o da pureza da amostra. Quando o sangue é coletado a montante ou próximo ao local de uma infusão, o produto que está sendo administrado – seja soro fisiológico, medicamentos ou nutrição parenteral – contamina inevitavelmente a amostra. O impacto mais direto e mensurável ocorre com soluções cristaloides, como o soro fisiológico a 0,9%. Estas soluções, ao se misturarem ao sangue no momento da coleta, promovem uma diluição artificial de todos os seus componentes. O resultado é uma subestimação generalizada e uniforme de todos os elementos figurados do sangue: os valores de eritrócitos, leucócitos e plaquetas apresentam-se falsamente baixos, mimetizando um quadro de pancitopenia que não reflete a realidade fisiopatológica do paciente.
As implicações clínicas desta distorção são sérias. Um hemograma que indica anemia, leucopenia e trombocitopenia em um paciente crítico pode desencadear uma cascata de investigações desnecessárias e, em casos extremos, intervenções terapêuticas inadequadas, como transfusões de hemoderivados que não são realmente necessárias. Além da diluição, a nutrição parenteral total (NPT) apresenta um problema adicional: sua composição lipídica e opaca causa turbidez no plasma, interferindo nos sistemas ópticos dos analisadores hematológicos automáticos. Esta interferência pode gerar interferências na contagem celular e na dosagem de hemoglobina, comprometendo a precisão de todos os parâmetros do hemograma.
A padronização técnica é clara e inequívoca para prevenir este erro. A coleta de sangue para exames laboratoriais deve ser realizada, preferencialmente, no braço contralateral à infusão. Quando isso não for possível, recomenda-se a interrupção da infusão por um período mínimo de 2 a 3 minutos antes da punção, que deve ser realizada em uma veia distante do sítio de infusão, idealmente abaixo dele, e descartando-se os primeiros mililitros de sangue coletados para evitar a contaminação residual com o fluido intravenoso.
A coleta em braço com infusão é um atalho perigoso que sacrifica a confiabilidade diagnóstica em favor da praticidade imediata. O resultado é um laudo que reflete mais a composição do fluido infundido do que o estado real do sangue do paciente. A rigorosa observância do protocolo de coleta em sítio não infundido é, portanto, uma salvaguarda essencial para a segurança do paciente e um pilar intransponível para a garantia da qualidade no laboratório de hematologia.
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