Mau Preenchimento do Tubo
(Amostra Incompleta)
A qualidade dos exames laboratoriais inicia-se no momento da coleta sanguínea, sendo que o preenchimento adequado do tubo constitui uma etapa crucial frequentemente subestimada. O mau preenchimento, caracterizado pela obtenção de amostra incompleta, representa um dos erros pré-analíticos mais significativos, com repercussões diretas e mensuráveis na precisão dos exames hematológicos. Esta falha técnica transcende a mera insuficiência volumétrica, configurando-se como uma alteração fundamental na relação sangue-anticoagulante que compromete a integridade da amostra.
Os tubos de coleta a vácuo são meticulosamente calibrados para manter uma proporção ideal entre o volume sanguíneo e a quantidade de anticoagulante EDTA. Quando essa relação é rompida por um sub-preenchimento, ocorre um excesso relativo de anticoagulante que desencadeia uma série de alterações celulares. O EDTA em concentração elevada exerce efeito citotóxico sobre os eritrócitos, provocando o fenômeno de crenação celular - um encolhimento e deformação da membrana eritrocitária que se manifesta morfologicamente através de projeções espiculadas irregulares.
As implicações analíticas dessas alterações são profundas. O Volume Corpuscular Médio (VCM), parâmetro fundamental para a classificação das anemias, apresenta resultados falsamente diminuídos, podendo conduzir a erros de diagnóstico como a falsa indicação de microcitose. Simultaneamente, o hematócrito sofre distorções significativas devido às alterações no volume eritrocitário individual, comprometendo a avaliação precisa da massa globular. Em situações mais extremas de desproporção, pode ocorrer hemólise parcial, com liberação de hemoglobina plasmática que interfere na dosagem espectrofotométrica deste analito.
As demais linhagens celulares igualmente sofrem interferências. A morfologia leucocitária pode ser alterada, dificultando a realização do diferencial celular, enquanto as plaquetas tornam-se susceptíveis a agregações que simulam quadros de trombocitopenia. Estas alterações tornam a amostra inadequada para análise, exigindo repetição do exame com consequente aumento de custos e desconforto para o paciente.
As origens do sub-preenchimento são multifatoriais, incluindo colapso venoso, posicionamento inadequado da agulha ou remoção prematura do tubo do adaptador. Cabe ao profissional flebotomista reconhecer imediatamente essa situação e proceder à nova coleta, preferencialmente em sítio alternativo ou utilizando tubo de volume apropriado.
A garantia do volume correto no tubo de coleta representa muito mais que uma formalidade técnica, constitui requisito essencial para a validade analítica dos exames hematológicos. Este aspecto demonstra de maneira eloquente que a confiabilidade dos resultados laboratoriais é indissociável do rigor técnico em todas as etapas pré-analíticas, reforçando a importância da educação continuada e da adesão estrita aos protocolos estabelecidos para a excelência na assistência ao paciente.
Comentários
Postar um comentário