Métodos Laboratoriais de Diagnóstico da MPOX
A confirmação laboratorial da infeção pelo vírus Mpox (MPXV) é um pilar indispensável para uma resposta de saúde pública eficaz. Num contexto clínico marcado por apresentações atípicas e um vasto diagnóstico diferencial, o laboratório assume um papel crítico na confirmação de casos, no rastreamento de contactos, na vigilância epidemiológica e no desenho de estratégias de contenção. Este capítulo fornece uma análise detalhada das principais técnicas de diagnóstico laboratorial, abordando os seus princípios, aplicações, vantagens e limitações, com ênfase nas melhores práticas para a colheita, manuseamento e interpretação de resultados.
A Amostra Ideal: Onde e Como Colher
A precisão de qualquer teste de diagnóstico começa com a colheita adequada da amostra. Para a Mpox, a natureza e o estádio da doença ditam o tipo de amostra mais indicado.
Swabs de Lesões: Esta é a amostra de eleição para a deteção do vírus durante a fase aguda da doença. O procedimento ideal envolve:
Múltiplas Lesões: Devem ser colhidas amostras de várias lesões (pelo menos 2 ou 3), preferencialmente em diferentes estágios de desenvolvimento (vesícula, pústula) e localizações corporais.
Técnica Adequada: É fundamental esfregar vigorosamente a base da lesão com um swab de rayon ou poliéster com ponta de plástico ou madeira (devem ser evitados swabs com ponta de algodão e hastes de madeira, que podem inibir a reação de PCR). O swab deve ser colocado imediatamente num meio de transporte viral estéril e mantido refrigerado (2-8°C) ou, idealmente, congelado a -70°C se o armazenamento for prolongado.
Momento da Colheita: A carga viral é mais elevada durante os estádios vesiculares e pustulares. As crostas também são uma boa fonte de ADN viral, mas a sensibilidade pode diminuir à medida que a lesão cicatriza.
Outras Amostras Relevantes:
Biopsias de Lesão: Quando realizadas por outras razões clínicas, as biopsias de pele são uma excelente fonte para deteção viral e análise histopatológica.
Swabs Orofaríngeos ou Nasofaríngeos: Podem ser positivos, especialmente em doentes com lesões orais ou sintomas respiratórios, mas a sensibilidade é geralmente inferior à dos swabs de lesões cutâneas.
Sangue (Plasma ou Soro): A viremia é normalmente de curta duração e ocorre maioritariamente durante o pródromo. Assim, a deteção do vírus no sangue tem uma sensibilidade baixa quando a erupção já está estabelecida. No entanto, é útil em doentes gravemente imunocomprometidos com doença disseminada.
Outros Fluidos Corporais: O sémen, o líquido cefalorraquidiano (LCR) e as amostras retais podem ser colhidos em contextos clínicos específicos para investigação ou para o diagnóstico de complicações atípicas (como proctite ou encefalite).
Biossegurança: Um Imperativo Não Negociável
Todas as amostras de doentes com suspeita de Mpox devem ser manuseadas como tendo um risco biológico de nível 3. A manipulação deve ocorrer em cabines de segurança biológica de classe II. Os profissionais de laboratório devem usar equipamento de proteção individual (EPI) adequado, incluindo bata, luvas, proteção ocular e máscara. O transporte das amostras para laboratórios de referência deve seguir os regulamentos internacionais (ex., regulamentos da OMS para substâncias infecciosas, categoria A).
Métodos de Diagnóstico Direto: Detetar o Vírus
Estes métodos visam detetar o vírus ou os seus componentes (ADN ou antigénios) e são os mais sensíveis e específicos para a confirmação de uma infeção ativa.
Reação em Cadeia da Polimerase em Tempo Real (qPCR):
Princípio: Esta é a técnica de referência ("gold standard") para o diagnóstico da Mpox. Utiliza primers (iniciadores) e probes (sondas) específicos que se ligam a sequências conservadas do genoma do MPXV, amplificando-as e permitindo a sua deteção e quantificação em tempo real.
Aplicação: Os ensaios de qPCR são concebidos para distinguir o MPXV de outros orthopoxvírus (como o vírus da varíola ou vaccinia) e, em alguns casos, para diferenciar entre os dois clados (I e II) do MPXV. São extremamente sensíveis e específicos, permitindo a deteção de quantidades mínimas de ADN viral.
Vantagens: Alta sensibilidade e especificidade; resultado rápido (geralmente em poucas horas); possibilidade de quantificação da carga viral; relativa facilidade de padronização.
Limitações: Requer equipamento especializado e técnicos qualificados; o resultado é dependente da qualidade da amostra e do momento da colheita.
Cultura Viral:
Princípio: Envolve a inoculação da amostra clínica em linhas celulares sensíveis (por exemplo, Vero) para isolar e propagar o vírus viável.
Aplicação: A cultura viral é crucial para a investigação, pois permite obter vírus viáveis para estudos de caracterização fenotípica, sensibilidade antiviral e desenvolvimento de vacinas. No contexto de diagnóstico de rotina, o seu papel é limitado.
Vantagens: Confirma a presença de vírus infecioso; é essencial para estudos de biologia viral.
Limitações: Demorado (pode levar vários dias até ao aparecimento do efeito citopático); requer instalações de biossegurança de nível 3 (BSL-3); risco acrescido para os técnicos de laboratório; menor sensibilidade comparativamente à qPCR.
Métodos de Diagnóstico Indireto: Detetar a Resposta Imunitária
Estes métodos detetam a resposta de anticorpos do hospedeiro contra o vírus.
Testes Sorológicos (Deteção de Anticorpos):
Princípio: Ensinos como o ELISA (Ensaio de Imunoabsorção Enzimática) ou o Western Blot são utilizados para detetar anticorpos IgM e IgG específicos contra o MPXV.
Aplicação: A sorologia tem uma utilidade limitada no diagnóstico agudo da Mpox. A sua principal aplicação é em estudos de seroprevalência para determinar a extensão da circulação do vírus numa população, na investigação de contactos assintomáticos e no diagnóstico retrospectivo de casos em que não foi possível colher amostras durante a fase aguda.
Vantagens: Útil para estudos populacionais e para casos em que as amostras de lesões não estão disponíveis.
Limitações Críticas:
Reatividade Cruzada: Os anticorpos contra orthopoxvírus apresentam uma reatividade cruzada significativa. Uma pessoa vacinada contra a varíola ou infetada com outro orthopoxvírus pode ter um resultado positivo, dificultando a interpretação.
Janeta Imunitária: Os anticorpos IgM e IgG podem não ser detetáveis até 5 a 14 dias após o início dos sintomas, tornando os testes insensíveis no início da doença.
Interpretação em Imunocomprometidos: A fiabilidade é reduzida em doentes imunocomprometidos, que podem não desenvolver uma resposta humoral robusta.
Técnicas Avançadas e Emergentes
Sequenciamento Genómico:
Princípio: Técnicas de sequenciamento de nova geração permitem determinar a sequência completa ou parcial do genoma do vírus presente numa amostra clínica.
Aplicação: O sequenciamento é uma ferramenta de saúde pública inestimável. Permite:
Vigilância Genómica: Rastrear as rotas de transmissão e a dinâmica dos surtos.
Estudo da Evolução Viral: Identificar mutações e novas variantes, como as observadas no surto de 2022, e investigar a sua potencial influência na transmissibilidade ou virulência.
Diferenciação de Estirpes: Distinguir com precisão entre os clados I e II do MPXV.
Limitações: É uma técnica cara, que requer expertise bioinformática avançada e não é utilizada para diagnóstico de rotina.
Testes Rápidos:
Contexto: Existe um esforço de investigação significativo para desenvolver testes de diagnóstico rápido, como os testes de fluxo lateral (similares aos testes de gravidez ou de COVID-19), que detetam antigénios virais.
Potencial: Estes testes poderiam revolucionar o controlo da Mpox em cenários de poucos recursos, em pontos de atendimento ou em situações de surto, fornecendo um resultado em minutos.
Desafios Atuais: A sua sensibilidade e especificidade são, atualmente, inferiores às da qPCR. O risco de reatividade cruzada com outros orthopoxvírus e a baixa carga viral em algumas amostras são obstáculos significativos. No momento da redação deste capítulo, nenhum teste rápido está amplamente validado ou recomendado para o diagnóstico definitivo da Mpox.
Interpretação de Resultados e Limitações em Cenários de Recursos Limitados
A correta interpretação dos resultados laboratoriais é fundamental. Um resultado positivo por qPCR confirma a infeção. Um resultado negativo, no entanto, não a exclui definitivamente, especialmente se a amostra for colhida tardiamente no curso da doença, se for de qualidade inadequada ou se for de um tipo de amostra subótimo (ex.: sangue sem lesões).
Em cenários de recursos limitados, o acesso à qPCR pode ser restrito. Nestas situações, a estratégia de diagnóstico deve basear-se fortemente na suspeita clínica e epidemiológica. A colheita e o armazenamento adequado de amostras (em congeladores a -70°C) permitem o seu envio posterior para laboratórios de referência regionais ou internacionais. O investimento no fortalecimento da capacidade laboratorial central, incluindo a formação de técnicos e a aquisição de equipamentos básicos de qPCR, é uma prioridade de saúde global para uma resposta equitativa a surtos de Mpox.
O diagnóstico laboratorial da Mpox evoluiu para um protocolo sofisticado, centrado na deteção molecular do ADN viral através de qPCR a partir de swabs de lesões. Este método oferece a combinação ideal de sensibilidade, especificidade e rapidez, sendo indispensável para a confirmação de casos. A cultura viral mantém o seu nicho na investigação, enquanto a sorologia e o sequenciamento genómico fornecem informações cruciais para a vigilância epidemiológica e a compreensão da evolução do vírus. O desenvolvimento de testes rápidos fiáveis representa a próxima fronteira, com o potencial de democratizar o diagnóstico. Contudo, a precisão de qualquer teste está intrinsecamente ligada a uma colheita de amostras correta e ao cumprimento estrito dos protocolos de biossegurança. A integração harmoniosa entre a suspeita clínica aguçada e a confirmação laboratorial robusta constitui a base para o controlo eficaz desta doença reemergente.

Comentários
Postar um comentário