Torniquete de Tempo Prolongado na Coleta
A coleta de sangue venoso é um procedimento técnico que demanda rigor científico, pois pequenos desvios podem introduzir erros significativos nos resultados laboratoriais. Entre os erros pré-analíticos mais comuns e impactantes está a aplicação do torniquete por tempo prolongado, um fator frequentemente subestimado, mas com consequências mensuráveis e críticas para a precisão dos exames hematológicos.
A função primária do torniquete é facilitar a palpação e punção da veia ao criar uma barreira temporária que ocasiona o estancamento do fluxo sanguíneo (estase venosa). No entanto, quando aplicado por mais de 60 segundos, desencadeia uma série de alterações fisiológicas no local. O principal fenômeno é a hemoconcentração, que ocorre devido ao aumento da pressão hidrostática venosa. Esse aumento força a passagem de água e eletrólitos do intravascular para o espaço intersticial, enquanto as células sanguíneas e as macromoléculas, como as proteínas, permanecem no interior do vaso. Consequentemente, o sangue que é aspirado para o tubo de coleta apresenta uma concentração artificialmente elevada de seus componentes celulares e proteicos.
O impacto desse artefato nos exames hematológicos é direto e substancial. O hemograma completo, um dos exames mais solicitados na prática clínica, torna-se particularmente vulnerável. Os valores de hemoglobina (Hb) e hematócrito (Ht) podem apresentar elevações falsas, mascarando um estado anêmico leve ou moderado. Da mesma forma, as contagens de eritrócitos, leucócitos e plaquetas também são afetadas, podendo resultar em pseudopolicitemia, pseudoleucocitose ou pseudotrombocitose. Para um médico que baseia sua conduta nesses parâmetros, um hematócrito falsamente elevado, por exemplo, pode levar a uma interpretação equivocada do estado de hidratação do paciente ou do tratamento de uma anemia.
A padronização do procedimento, conforme diretrizes de órgãos como o Clinical and Laboratory Standards Institute (CLSI), é a chave para mitigar esse erro. O protocolo estabelece que o torniquete deve ser liberado imediatamente após a punção venosa bem-sucedida e, em hipótese alguma, deve permanecer aplicado por mais de um minuto. A prática de solicitar que o paciente abra e feche a mão repetidamente ("bombear" o punho) é igualmente contraindicada, pois exacerba o processo de hemoconcentração.
Portanto, a aplicação do torniquete, embora aparentemente simples, é um passo crítico que exige precisão e consciência do coletador. O tempo de aplicação é uma variável controlável cujo manejo adequado é fundamental para assegurar a integridade da amostra. A fidedignidade do diagnóstico hematológico começa no momento em que o torniquete é colocado, e seu controle rigoroso representa um pilar essencial para a qualidade dos resultados e, por extensão, para a segurança do paciente e a eficácia da conduta clínica.
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