Trauma Excessivo ou Agulha Muito Fina
(Hemólise)
A busca pela qualidade dos exames laboratoriais esbarra frequentemente em desafios na fase pré-analítica, entre os quais se destaca a hemólise, definida como a ruptura da membrana dos eritrócitos com liberação de hemoglobina e conteúdo intracelular no plasma. Embora possa ter causas biológicas, a hemólise de origem técnica, particularmente aquela decorrente de trauma excessivo durante a coleta ou do uso de agulha muito fina, constitui um erro prevenível com impactos profundos na precisão dos exames hematológicos.
O mecanismo fisiopatológico da hemólise iatrogênica relaciona-se diretamente com o estresse mecânico imposto às células sanguíneas. O uso de agulhas de calibre excessivamente fino (como as de 25G ou menores) cria uma resistência significativa à passagem do sangue, submetendo os elementos figurados a forças de cisalhamento intensas durante a aspiração. De forma similar, manobras como a mudança repetida da posição da agulha no interior da veia, uma aspiração excessivamente vigorosa quando se utiliza seringa, ou mesmo a transferência turbulenta do sangue da seringa para o tubo, geram traumas que comprometem a integridade da membrana eritrocitária.
As consequências para o hemograma são imediatas e multifacetadas. A liberação massiva de hemoglobina no plasma interfere diretamente na dosagem espectrofotométrica deste analito, podendo resultar em valores falsamente elevados. Paradoxalmente, a destruição dos glóbulos vermelhos leva a uma contagem falsamente baixa de eritrócitos, criando uma discrepância analítica entre a concentração de hemoglobina e o número de hemácias. O hematócrito, frequentemente calculado a partir do produto do VCM pela contagem de eritrócitos, também se torna inaccurate. Além disso, a hemólise libera substâncias intracelulares, como o potássio e as enzimas eritrocitárias, que podem interferir em outros ensaios laboratoriais solicitados em conjunto.
O impacto transcende a pura distorção numérica. A presença de hemoglobina livre no plasma pode interferir nos sistemas ópticos dos analisadores hematológicos, comprometendo a confiabilidade de todos os parâmetros medidos. Amostras visivelmente hemolisadas são frequentemente rejeitadas, implicando na necessidade de uma nova coleta – um processo que gera custos adicionais, atrasos no diagnóstico e, sobretudo, desconforto para o paciente.
A prevenção baseia-se na rigorosa observação da técnica adequada. Recomenda-se o uso de agulhas de calibre igual ou superior a 22G para a coleta venosa convencional em adultos, assegurando um fluxo sanguíneo adequado com mínimo estresse celular. A fixação firme da agulha, a aspiração suave e a transferência não turbulenta do sangue para o tubo são procedimentos essenciais para preservar a integridade da amostra.
A hemólise induzida por técnica de coleta inadequada não é um simples inconveniente, mas um fator crítico que invalida a confiabilidade dos exames hematológicos. Sua prevenção através do treinamento contínuo e da adesão estrita aos protocolos estabelecidos não é apenas uma questão de controle de qualidade analítico, mas uma obrigação ética para com a segurança do paciente e a confiabilidade do diagnóstico.

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