Uso de Tubo de Coleta Inadequado
No intricado processo de análise laboratorial, a seleção do tubo de coleta correto constitui a primeira e mais crucial decisão técnica para garantir a validade dos resultados. O uso de um tubo com tipo ou concentração inadequada de anticoagulante representa um erro pré-analítico de consequências profundas, particularmente para os exames hematológicos. Esta falha, muitas vezes irreversível, compromete a integridade morfológica e quantitativa das células sanguíneas desde o momento da coleta, tornando a amostra inválida antes mesmo de sua análise.
A especificidade de cada anticoagulante é determinada por seu mecanismo de ação e seus efeitos sobre os elementos figurados do sangue. Para o hemograma completo, o EDTA (Ácido Etilenodiamino Tetra-Acético) é universalmente reconhecido como o anticoagulante de eleição. Sua ação, baseada na quelação dos íons cálcio, impede de forma eficaz a cascata de coagulação sem, contudo, causar distorções significativas no volume ou na morfologia das células sanguíneas quando utilizado na concentração adequada. Esta neutralidade é essencial para a precisão das contagens automatizadas e para a avaliação morfológica ao microscópio.
A substituição do EDTA por heparina, outro anticoagulante comum, introduz uma série de interferências. A heparina, embora previna a coagulação, pode induzir alterações na morfologia celular, como o agrupamento de plaquetas e a formação de filamentos de fibrina, que interferem diretamente na contagem automatizada. Além disso, sua presença provoca o aparecimento de basofilia citoplasmática nos linfócitos e monócitos, um artefacto que pode ser erroneamente interpretado como uma alteração patológica no esfregaço sanguíneo. Já o citrato de sódio, anticoagulante utilizado principalmente em testes de coagulação, apresenta uma diluição padrão do sangue (1:9), o que por si só altera todas as contagens celulares, tornando os resultados numericamente incomparáveis com os de referência obtidos com EDTA.
As consequências desta substituição inadequada extrapolam o laboratório. Um hemograma realizado em tubo com anticoagulante incorreto pode apresentar desde pseudotrombocitopenia até alterações eritrocitárias artificiais, levando a equipe clínica a suspeitar erroneamente de condições hematológicas inexistentes. O resultado é a solicitação de exames complementares desnecessários, atraso no diagnóstico correto e, em última instância, prejuízo ao manejo terapêutico adequado do paciente.
A prevenção deste erro exige rigoroso treinamento da equipe de coleta, com ênfase na verificação sistemática da compatibilidade entre o tubo selecionado e os exames solicitados. A implementação de listas de verificação e a padronização de cores das tampas como guia visual são estratégias eficazes.
A escolha do tubo de coleta adequado não é uma mera formalidade, mas uma decisão técnica de impacto determinante. A fidelidade dos resultados hematológicos depende intrinsecamente da correta interação entre o sangue e o anticoagulante específico, reforçando que a qualidade do diagnóstico começa muito antes da análise automatizada, no exato momento da seleção do recipiente adequado para receber a amostra biológica.

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