Detecção de Erros e Ações Corretivas na Prática Laboratorial
A detecção de erros e a adoção de ações corretivas na prática laboratorial são etapas cruciais para garantir a confiabilidade dos resultados e a segurança do paciente. No contexto das análises clínicas, o erro laboratorial pode ocorrer em qualquer uma das três fases do processo pré-analítica, analítica e pós-analítica, exigindo do técnico uma atuação vigilante, criteriosa e sistematizada. A identificação precoce e a correção imediata dessas falhas constituem o alicerce da gestão da qualidade, pois evitam decisões clínicas equivocadas e reforçam a credibilidade do laboratório.
Na fase pré-analítica, concentram-se cerca de 60% a 70% dos erros laboratoriais, geralmente relacionados à coleta, identificação e transporte das amostras. Cabe ao técnico verificar a integridade das amostras antes do processamento, observando aspectos como volume insuficiente, hemólise, lipemia ou contaminação. Por exemplo, um caso frequente ocorre quando uma amostra de sangue apresenta coloração rosada, indicativa de hemólise. O técnico deve registrar a ocorrência no sistema, rejeitar a amostra conforme os critérios do procedimento operacional padrão (POP) e solicitar uma nova coleta. Essa ação preventiva evita que o laudo apresente resultados falsamente alterados em análises de potássio ou lactato desidrogenase, parâmetros altamente sensíveis à ruptura das hemácias.
Na fase analítica, os erros decorrem principalmente de falhas em equipamentos, reagentes ou no próprio método analítico. A detecção é realizada por meio dos programas de controle de qualidade interno e externo. Quando um controle interno apresenta resultado fora do limite permitido nos gráficos de Levey-Jennings, o técnico deve interromper imediatamente as análises de pacientes, investigar as causas e adotar medidas corretivas. Por exemplo, se o controle de glicose indica valor acima de +2 desvios-padrão, o técnico verifica primeiramente o lote e a validade dos reagentes, a calibração do equipamento e a integridade das pipetas. Caso a anomalia persista, o incidente deve ser documentado como não conformidade, e o responsável técnico é acionado para avaliação e possível repetição da calibração. Essa metodologia segue os princípios da análise de causa raiz, em que se busca identificar o fator originário do erro, e não apenas corrigir seus sintomas.
Na fase pós-analítica, os erros estão frequentemente associados à validação e liberação de resultados. O técnico deve revisar os laudos antes de liberá-los, conferindo se estão coerentes com o histórico do paciente e com outros parâmetros analisados. Um caso ilustrativo envolve um resultado de potássio extremamente baixo (1,8 mEq/L) em um paciente assintomático. Ao comparar com o hemograma e demais exames, o técnico percebe que não há sinais de desequilíbrio eletrolítico e decide repetir a análise, constatando erro de diluição na amostra anterior. Essa verificação evita a emissão de um laudo incorreto que poderia levar à hospitalização desnecessária.
O relatório de não conformidade é o instrumento formal utilizado para documentar erros detectados e suas respectivas ações corretivas. Nele, o técnico descreve o tipo de erro, as possíveis causas, as medidas tomadas e as ações preventivas propostas. Além da correção imediata, é essencial implementar estratégias preventivas, como revisões periódicas dos POPs, treinamento contínuo da equipe e manutenção preventiva dos equipamentos. Essas práticas fortalecem o ciclo de melhoria contínua, em consonância com as diretrizes da ISO 15189 e da RDC nº 302/2005 da ANVISA.
A detecção e correção de erros laboratoriais exigem do técnico não apenas conhecimento técnico, mas também senso crítico e comprometimento ético. Cada decisão tomada diante de uma inconformidade impacta diretamente na qualidade dos resultados e, consequentemente, na conduta médica e no bem-estar do paciente. O profissional que adota uma postura preventiva, pautada em investigação sistemática e documentação transparente, contribui para um laboratório mais seguro, eficiente e alinhado aos princípios da excelência em saúde diagnóstica.

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