Imunohistoquímica e Hibridização In Situ: Construindo o Perfil Imunofenotípico

 

Imunohistoquímica e Hibridização In Situ:
 Construindo o Perfil Imunofenotípico

Imagine que a lâmina de H&E é uma fotografia em preto e branco de um suspeito. Bonita, cheia de detalhes, mas ainda não diz quem ele realmente é.
A imunohistoquímica entra em cena como a perícia criminal que levanta as digitais, revela a origem e até prevê o comportamento futuro. Em poucas horas, um pedaço de tecido ganha identidade completa: linhagem, subtipos moleculares, alvos terapêuticos e prognóstico. É, sem exagero, uma das revoluções mais silenciosas e poderosas da medicina moderna.

Tudo começa com a escolha certeira do painel, aqui não vale “atirar para todos os lados”.
Cada suspeita morfológica tem seu kit mínimo infalível. Para um linfoma difuso de grandes células B, o sexteto CD20, CD10, BCL6, MUM1, BCL2 e MYC (mais Ki-67) já separa GCB de ABC, flagra double-hit e orienta rituximab ou inibidores de BTK. Linfoma T periférico?
CD3, CD4, CD8, perdas de CD5/CD7 e marcadores foliculares (PD1, CXCL13, ICOS) contam a história toda.
No Hodgkin clássico, o show é das células de Reed-Sternberg: CD30 e CD15 explodindo em membrana e Golgi, PAX5 fraquinho e fundo de linfócitos CD3+, diagnóstico fechado com beleza quase artística.

Alguns marcadores mudam o jogo em segundos. ALK positivo no citoplasma e núcleo de células grandes e pleomórficas?

Linfoma anaplásico ALK+, cura acima de 90% em crianças e jovens. Cyclin D1 nuclear forte + CD5+ CD23–?

Células do manto, ponto final, mesmo que a translocação t(11;14) falhe no FISH. SOX11 resolve os casos cyclin D1-negativos. MYC > 70% combinado com BCL2/BCL6 rearranjados?

Alarme vermelho de double/triple-hit, sobrevida mediana de meses se tratado como DLBCL comum. PD-L1 alto no microambiente do Hodgkin refratário ou no carcinoma nasofaríngeo?

Porta aberta para nivolumab ou pembrolizumab, o que era sentença pode virar cura.

O olhar experiente lê não só positivo ou negativo, mas o padrão e a intensidade: Golgi pontilhado do CD30, membrana nítida do CD20, nuclear difuso do MYC, citoplasmático granular da tiroglobulin. Uma marcação fraca pode ser a diferença entre Hodgkin e carcinoma pouco diferenciado. Ki-67 de 95% em Burkitt não é detalhe, é urgência absoluta.

Cuidado, porém, com as armadilhas. Biópsias ósseas descalcificadas com ácido forte devoram antígenos linfóides, CD20 some como mágica. Fixação antiga em B5 ou mercúrio apaga CD30 e CD15. Necrose e bordas de biópsia criam falsos positivos por captura inespecífica. Por isso o patologista nunca confia cegamente: correlaciona com H&E, repete marcador em bloco melhor e, se necessário, parte para biologia molecular.

A hibridização in situ (EBER para vírus Epstein-Barr, kappa/lambda para clonalidade plasmocitária) fecha o perfil com chave de ouro. No final, o que era um punhado de células anônimas ganha nome, sobrenome, RG e até carteira de motorista terapêutica. A imunohistoquímica não é coadjuvante, é protagonista. Quem a domina não apenas diagnostica doenças: desenha o mapa que leva o paciente do medo à cura.

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