Morfologia Convacional: Ainda a Pedra Angular do Diagnóstico

Morfologia Convacional:
Ainda a Pedra Angular do Diagnóstico



Em um mundo dominado por sequenciadores de nova geração, painéis moleculares e inteligência artificial, a lâmina corada com hematoxilina e eosina (H&E) continua sendo o instrumento mais poderoso nas mãos do patologista. A morfologia convencional não é um método “antigo”, é o alicerce irrevocável sobre o qual todos os testes complementares se apoiam. Sem uma boa morfologia, até o sequenciamento mais sofisticado pode levar a interpretações equivocadas.

Tudo começa com a qualidade técnica impecável da lâmina. Cortes de 3 a 4 micrômetros de espessura, obtidos em micrótomo bem afiado e com bloco adequadamente processado, são essenciais. Uma coloração H&E perfeita revela núcleos azul-violeta nítidos, citoplasma rosa delicado e matriz extracelular em tons variáveis, detalhes que desaparecem em cortes grossos ou mal corados. Um corte mal feito pode transformar um carcinoma bem diferenciado em algo “pouco diferenciado” apenas por artefato.

Na avaliação morfológica, os padrões arquiteturais clássicos permanecem soberanos. Reconhecer o arranjo nodular com linfócitos pequenos envolvendo células grandes de núcleo vesiculoso e nucléolo proeminente (“pipoca”) permite suspeitar fortemente de linfoma de Hodgkin clássico, subtipo nodular linfócito-predominante (NLPHL). A armadilha clássica é confundi-lo com linfoma folicular grau 3B ou mesmo com carcinoma tímico. Da mesma forma, o padrão “céu estrelado” em linfoma de Burkitt, o crescimento em lençóis de linfócitos grandes em linfoma difuso de grandes células B ou a disposição perivascular em roseta do tumor de células germinativas exigem treino constante do olhar. Essas imagens são gravadas na memória visual do patologista experiente muito antes de qualquer marcador imunohistoquímico ser solicitado.

Em aspirados por agulha fina (PAAF) e imprints (toques), a coloração May-Grünwald-Giemsa (MGG) brilha pela rapidez e riqueza citológica. Plasmócitos com citoplasma basófilo intenso e roda de carro, linfócitos pequenos com cromatina densa, blastos com nucléolos evidentes e grânulos azurófilos abundantes em leucemia mieloide aguda são diagnósticos possíveis em minutos. Contudo, a MGG tem limitações claras: não diferencia bem linfoma folicular de hiperplasia reacional, não separa linfoma de células do manto de outros linfomas de pequenas células e falha em identificar reliably carcinoma neuroendócrino versus linfoma de grandes células. Nessas situações, a morfologia sozinha levanta hipóteses, mas nunca fecha o diagnóstico definitivo.

O momento mágico acontece no primeiro olhar do patologista ao microscópio multi cabeças ou à lâmina digital: em segundos surgem as hipóteses diferenciais principais. “Parece linfoma de Hodgkin, mas pode ser carcinoma nasofaríngeo”, “esse padrão trabecular grita carcinoma hepatocelular”, “células discoesivas com plasmocitoide, mieloma ou carcinoma?”.

Essa integração inicial orienta todo o raciocínio subsequente: quais marcadores pedir, se é necessário material fresco, se o caso vai para revisão em comitê de hematopatologia.

A morfologia convencional não é apenas o primeiro passo é o passo que nunca pode ser pulado. Ela filtra casos, evita exames desnecessários, detecta discrepâncias moleculares e, acima de tudo, protege o paciente de diagnósticos errôneos. Enquanto houver patologistas olhando lâminas, a H&E continuará sendo a rainha indiscutível da anatomia patológica.
Porque, no final, o diagnóstico não é o que a máquina diz  é o que o olho treinado vê.

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