A Batalha Invisível: Agressão, Defesa e o Limiar da Lesão Celular

 A Batalha Invisível:
Agressão, Defesa e o Limiar da Lesão Celular



A vida celular é um estado de equilíbrio dinâmico e energeticamente caro, mantido por uma miríade de processos bioquímicos e fisiológicos. Este estado, a homeostase, está constantemente desafiado por uma infinidade de estímulos potencialmente nocivos, as agressões. O destino da célula, adaptação, lesão reversível, lesão irreversível ou morte, depende do delicado balanço entre a natureza, intensidade e duração da agressão e a capacidade intrínseca da célula de se defender e se adaptar.

Uma agressão é qualquer estímulo que exceda a capacidade adaptativa da célula. Classificam-se em:
1) Físicas (trauma mecânico, temperaturas extremas, radiação, choque elétrico); 2) Químicas (substâncias tóxicas exógenas como cianeto ou mercúrio, ou endógenas como radicais livres; drogas terapêuticas em excesso); 3) Biológicas (vírus, bactérias, fungos, parasitas que invadem, se replicam ou produzem toxinas);
4) Imunológicas (respostas exageradas ou direcionadas contra o próprio organismo, como em alergias e doenças autoimunes);
5) Genéticas (mutações que levam à produção de proteínas defeituosas); 6) Nutricionais (deficiências de vitaminas, minerais, oxigênio, hipóxia, ou excessos como hiperglicemia).

Diante da agressão, a célula e o organismo desencadeiam respostas de defesa coordenadas. Em nível celular, os principais sistemas-alvo são a integridade da membrana, a respiração mitocondrial (produção de ATP), a síntese proteica e a integridade do material genético. A célula ativa vias de desintoxicação (como o citocromo P450), sistemas antioxidantes (glutatião, enzimas como catalase), chaperonas moleculares (proteínas de choque térmico) e mecanismos de reparo do DNA. Em nível sistêmico, o organismo recruta o sistema inflamatório, imunológico e de coagulação para isolar, neutralizar e remover o agente agressor.

Quando as defesas são eficazes, a célula pode se adaptar. As adaptações celulares são alterações funcionais e morfológicas reversíveis em resposta a estresse fisiológico ou patológico, visando a sobrevivência. Incluem: Hipertrofia (aumento do tamanho celular), Hiperplasia (aumento do número de células), Atrofia (diminuição do tamanho e função) e Metaplasia (substituição de um tipo celular diferenciado por outro). São tentativas bem-sucedidas de preservar a função.

No entanto, se a agressão for muito intensa, rápida ou prolongada, ou se as defesas forem deficientes, ocorre a lesão celular. Inicialmente, a lesão é reversível. As alterações bioquímicas principais são: 1) Depleção de ATP (interrompendo bombas iônicas); 2) Influxo de Cálcio intracelular (ativando enzimas destrutivas); 3) Formação de Radicais Livres de Oxigênio (causando peroxidação lipídica e dano ao DNA); 4) Alteração da Permeabilidade da Membrana Mitocondrial. Morfologicamente, a lesão reversível se manifesta por inchaço celular (tumefação turva) e alterações gordurosas (esteatose). Se o estímulo nocivo for removido neste estágio, a célula pode restaurar sua homeostase. Caso contrário, atinge um ponto de não retorno, caracterizando a lesão irreversível, que culmina inevitavelmente na morte celular. Este ponto crítico é marcado por dano mitocondrial irreparável, perda massiva de fosfolipídios de membrana e ruptura dos lisossomos, liberando enzimas digestivas. A partir daí, a célula segue para a necrose ou apoptose, processos que definem o fim do caminho e serão abordados em capítulos dedicados.

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