Classificação e Nomenclatura das Lesões Celulares

 Classificação e Nomenclatura das Lesões Celulares


Para compreender e comunicar as alterações patológicas com precisão, a Patologia desenvolveu um sistema robusto de classificação e nomenclatura das lesões. Este "atlas da injúria" organiza os danos celulares com base em critérios como cronologia, distribuição, natureza morfológica e etiologia, permitindo correlacionar achados microscópicos com disfunções clínicas.

Quanto à cronologia, as lesões podem ser: Agudas, de instalação rápida (minutos a dias), geralmente associadas a processos exsudativos como inflamação, e Crônicas, de desenvolvimento lento (semanas a anos), frequentemente caracterizadas por infiltrado inflamatório linfocítico, fibrose e tentativas de reparo.

Quanto à distribuição nos tecidos, classificam-se em: Focais (localizadas em uma área discreta, como um abscesso), Multifocais (várias lesões discretas distribuídas aleatoriamente, como em algumas infecções virais), Difusas (atingindo uniformemente todo um órgão ou grande parte dele, como na esteatose hepática alcoólica) e Sistêmicas (que afetam múltiplos órgãos, como no lúpus eritematoso).

A classificação mais rica e fundamental, porém, baseia-se na natureza morfológica da alteração principal. Divide-se em dois grandes grupos:

1. Lesões Reversíveis (Degenerações ou Distrofias): São acúmulos intracelulares ou alterações no metabolismo que denunciam injúria, mas ainda permitem a recuperação. O termo "degeneração" (do latim degenerare, "sair do gênero") implica uma perda da especialização funcional. Incluem:
Degeneração Hidrópica (Tumefação Turva): Inchaço celular por acúmulo de água no citoplasma.
Degeneração Gordurosa (Esteatose): Acúmulo anormal de triglicerídeos dentro das células parenquimatosas (fígado, coração, rim).
Degeneração Hialina: Acúmulo no citoplasma ou no espaço extracelular de uma substância protéica vítrea, homogênea e eosinofílica (rosada) à microscopia.
Degeneração Cáscica (Calcificação): Deposição anormal de sais de cálcio em tecidos não ósseos, podendo ser distrófica (em tecidos mortos ou degenerados) ou metastática (devido a hipercalcemia sistêmica).

2. Lesões Irreversíveis (Morte Celular): Representam o ponto final da injúria. A classificação morfológica principal distingue dois processos fundamentais com mecanismos, causas e implicações distintas:
Necrose: Morte celular "acidental" e desorganizada, geralmente causada por agressão externa severa (isquemia, toxinas, trauma). Caracteriza-se por edema celular, ruptura de organelas e liberação de conteúdo intracelular, desencadeando inflamação.
Apoptose: Morte celular "programada" e ordenada, um mecanismo fisiológico de eliminação de células indesejadas, controlado geneticamente. A célula se encolhe, condensa seu núcleo e é fagocitada de forma "limpa", sem inflamação.

Além disso, as lesões podem ser nomeadas com base em sua etiologia (ex: lesão isquêmica, lesão tóxica, lesão viral) ou em sua aparência macroscópica (ex: lesão nodular, ulcerada, necrótica). Esta sistematização da nomenclatura não é mero pedantismo acadêmico; é a linguagem que permite ao patologista traduzir a imagem microscópica em um diagnóstico compreensível, orientando prognóstico e terapia. Nos capítulos seguintes, exploraremos em detalhes os principais tipos de degenerações e os processos de morte celular.




Comentários