Hepcidina Sérica
A hepcidina sérica é atualmente reconhecida como um dos mais importantes biomarcadores no estudo do metabolismo do ferro, exercendo papel central na homeostase desse micronutriente essencial. Trata-se de um peptídeo hormonal produzido predominantemente pelos hepatócitos, cuja principal função é regular a absorção intestinal do ferro, sua liberação pelos macrófagos do sistema reticuloendotelial e a mobilização dos estoques hepáticos. Por meio desse controle, a hepcidina atua como elo fundamental entre o estado inflamatório, as reservas corporais de ferro e a eritropoiese.
O mecanismo de ação da hepcidina baseia-se na interação direta com a ferroportina, proteína responsável pela exportação do ferro das células para a circulação. Ao se ligar à ferroportina, a hepcidina induz sua internalização e degradação, reduzindo a liberação do ferro para o plasma. Consequentemente, níveis elevados de hepcidina resultam em diminuição do ferro sérico disponível para a medula óssea, enquanto níveis baixos favorecem maior absorção intestinal e mobilização do ferro armazenado.
Do ponto de vista clínico, a dosagem da hepcidina sérica tem se mostrado particularmente relevante na diferenciação entre anemia ferropriva e anemia da doença crônica, duas condições frequentes na prática médica e que frequentemente apresentam sobreposição de achados laboratoriais. Na anemia ferropriva, caracterizada pela depleção real dos estoques de ferro, observa-se redução significativa dos níveis de hepcidina. Esse achado reflete um mecanismo adaptativo do organismo, que busca aumentar a absorção intestinal e a liberação do ferro armazenado para suprir a demanda eritropoiética.
Em contraste, na anemia da doença crônica, também denominada anemia da inflamação, os níveis de hepcidina encontram-se elevados, mesmo na presença de estoques de ferro adequados ou aumentados. Esse aumento é mediado por citocinas inflamatórias, especialmente a interleucina-6, que estimulam a síntese hepática de hepcidina. O resultado é o sequestro do ferro nos macrófagos e hepatócitos, reduzindo sua disponibilidade para a produção de hemoglobina, apesar de reservas aparentemente normais.
A introdução da hepcidina sérica como biomarcador representa um avanço significativo na avaliação diagnóstica das anemias, especialmente em cenários nos quais marcadores tradicionais, como ferritina, saturação de transferrina e ferro sérico, apresentam limitações, sobretudo em contextos inflamatórios. Além disso, a hepcidina oferece perspectivas promissoras no monitoramento terapêutico e na individualização do tratamento com ferro, contribuindo para decisões clínicas mais precisas e fundamentadas.
Assim, a hepcidina sérica consolida-se como regulador central do metabolismo do ferro e ferramenta diagnóstica de grande valor, ampliando a compreensão fisiopatológica das anemias e aprimorando a abordagem clínica dessas condições.
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