O uso racional dos exames laboratoriais constitui um pilar fundamental da medicina moderna baseada em evidências, representando muito mais do que uma simples otimização de custos. Trata-se de uma filosofia de prática clínica que integra precisão diagnóstica, segurança do paciente, sustentabilidade dos sistemas de saúde e efetividade terapêutica. Fundamenta-se no princípio de que todo exame solicitado deve ter um propósito claro e uma alta probabilidade de influenciar positivamente a conduta médica e o desfecho do paciente. Organizações líderes globais, como a International Federation of Clinical Chemistry and Laboratory Medicine (IFCC) e a Association for Diagnostics & Laboratory Medicine (AACC), enfatizam que a racionalidade começa com uma pergunta clínica bem formulada, para a qual o exame oferece a melhor resposta possível, considerando seu valor preditivo, sensibilidade e especificidade no contexto específico do paciente. No Brasil, a Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (SBPC/ML) tem sido protagonista na disseminação deste conceito, destacando que a riqueza de informações fornecidas pelo laboratório clínico só se concretiza em benefício real quando os testes são corretamente indicados, interpretados e integrados ao quadro clínico.
A racionalidade perpassa todo o ciclo do exame, desde a indicação pré-analítica até a interpretação pós-analítica. Envolve evitar tanto a subutilização, que pode levar a diagnósticos tardios e pior prognóstico, quanto a superutilização, fonte de desperdício, diagnósticos falso-positivos, ansiedade do paciente e eventuais iatrogenias devido a investigações desnecessárias de resultados anormais sem relevância clínica. Diretrizes de práticas clínicas baseadas em evidências, desenvolvidas por sociedades especializadas, são ferramentas essenciais para orientar a solicitação adequada. O movimento pelo uso racional não é um limitador do acesso, mas um qualificador da qualidade. Visa assegurar que os recursos investidos no diagnóstico laboratorial, que consomem uma parcela significativa dos orçamentos em saúde, gerem o máximo de valor em termos de melhoria da saúde individual e coletiva. Neste sentido, é um imperativo ético e de boa governança clínica, alinhando-se aos esforços de acreditação como os do Sistema Nacional de Acreditação (DICQ), que buscam a excelência e a segurança do cuidado.
Comentários
Postar um comentário