Acromegalia

 Acromegalia


A Acromegalia configura-se como síndrome clínica rara, resultante da hipersecreção crônica do hormônio do crescimento (GH) na idade adulta, após o fechamento das epífises ósseas, determinando crescimento acral e de tecidos moles, além de alterações metabólicas e complicações sistêmicas. Quando a hipersecreção de GH ocorre antes da fusão das epífises (período de crescimento), manifesta-se como gigantismo. A incidência anual estima-se em 3-4 casos por milhão de habitantes, com prevalência de 60-70 casos por milhão, distribuição igual entre sexos e idade média ao diagnóstico ao redor de 40-50 anos.

Em mais de 95% dos casos, a acromegalia é causada por adenoma hipofisário secretor de GH, monoclonal, esporádico na maioria. Os adenomas classificam-se como microadenomas (<1 cm) em cerca de 20% e macroadenomas (>1 cm) em 80%, estes últimos frequentemente invasivos. Raramente (<5%), a hipersecreção decorre de tumores hipotalâmicos secretores de GHRH (hamartomas, gangliocitomas) ou tumores neuroendócrinos periféricos secretores de GHRH (pulmão, pâncreas, intestino). Mutações ativadoras do gene GNAS (síndrome de McCune-Albright) e mutações inativadoras da aril hidrocarboneto receptor interacting protein (AIP) associam-se a formas familiares, incluindo neoplasia endócrina múltipla tipo 1 (MEN1), complexo de Carney e adenomas hipofisários familiares isolados (FIPA).

A exposição crônica a níveis elevados de GH estimula a produção hepática e local de IGF-1 (fator de crescimento semelhante à insulina tipo 1), mediador primário dos efeitos somáticos do GH. O excesso combinado de GH e IGF-1 determina proliferação celular, expansão de tecidos moles, crescimento ósseo periosteal e disfunção de múltiplos órgãos.

O quadro clínico desenvolve-se insidiosamente, frequentemente com atraso diagnóstico de 5-10 anos. As manifestações incluem: alterações acrais (aumento progressivo de mãos e pés, com necessidade de aumentar anéis, luvas, calçados), alterações faciais (alargamento de mandíbula com prognatismo, macroglossia, aumento do nariz e orelhas, bossa frontal), síndrome do túnel do carpo, artropatia (degenerativa, de grandes articulações), alterações metabólicas (intolerância à glicose/diabetes mellitus em 30-50%), hipertensão arterial (30-40%), cardiomiopatia (hipertrofia concêntrica, disfunção diastólica, insuficiência cardíaca, arritmias), síndrome da apneia obstrutiva do sono (70%, por macroglossia e espessamento de vias aéreas), pólipos colônicos (risco aumentado de neoplasia colorretal), bócio multimodular e, nos macroadenomas, síndromes compressivas (cefaleia, alterações campimétricas por compressão quiasmática, hipopituitarismo).

O diagnóstico bioquímico estabelece-se por: dosagem de IGF-1 elevada para idade e sexo (excelente marcador de screening, refletindo secreção integrada de GH); e teste de tolerância oral à glicose (TOTG) com 75g, demonstrando inadequada supressão do GH (<1,0 ng/mL com ensaios ultrassensíveis). A ressonância magnética de sela túrcica identifica e caracteriza o adenoma, avaliando extensão e contato com quiasma óptico. A ressonância de corpo inteiro com DOTA-TATE PET/CT pode ser útil em tumores GHRH ectópicos.

O tratamento objetiva normalizar níveis de GH/IGF-1, controlar massa tumoral, preservar função hipofisária e reduzir comorbidades. A cirurgia transesfenoidal constitui terapia de primeira linha para microadenomas e macroadenomas não invasivos (taxas de remissão de 80-90% e 40-60%, respectivamente). O tratamento medicamentoso inclui análogos da somatostatina (octreotida, lanreotida) como terapia primária ou adjuvante; agonistas dopaminérgicos (cabergolina, particularmente em tumores co-secretores de prolactina); e antagonista do receptor de GH (pegvisomanto), altamente eficaz em normalizar IGF-1. A radioterapia (convencional ou estereotáxica) é reservada para doença residual pós-cirúrgica refratária a medicamentos. O manejo multidisciplinar com monitoramento de comorbidades cardiovasculares, metabólicas e neoplásicas mostra-se fundamental para redução da mortalidade (normalizada com controle bioquímico).



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