As Consequências Clínicas da Solicitação Inadequada: Riscos ao Paciente

 As Consequências Clínicas da Solicitação Inadequada
Riscos ao Paciente


A solicitação excessiva ou inadequada de exames laboratoriais não é um problema meramente administrativo ou econômico; ela carrega riscos reais e significativos para a segurança do paciente. Um dos fenômenos mais prevalentes é a descoberta de anormalidades laboratoriais sem significado clínico (ASSC). Em um perfil bioquímico amplo, é matematicamente provável que um ou mais resultados saiam do intervalo de referência em um indivíduo saudável, simplesmente por variação biológica e estatística. Quando esses resultados são incorretamente interpretados como patológicos na ausência de uma suspeita clínica correspondente, inicia-se uma cascata de intervenções. O paciente pode ser submetido a repetições desnecessárias do exame, a consultas com especialistas, a exames de imagem invasivos ou a procedimentos diagnósticos mais arriscados, gerando ansiedade, custos pessoais e exposição a riscos físicos, como reações a meios de contraste ou complicações de biópsias.

Outro risco grave é o do sobrediagnóstico, particularmente relevante em rastreamentos populacionais mal direcionados. Identificar condições que nunca evoluiriam para causar sintomas ou morte durante a vida do paciente pode levar a tratamentos agressivos cujos danos superam os benefícios. Além disso, a coleta excessiva de sangue para múltiplos exames desnecessários pode contribuir para a anemia iatrogênica, especialmente em pacientes críticos ou idosos. Do ponto de vista clínico-decisório, a poluição informativa é um perigo silencioso. Um grande volume de resultados normais ou irrelevantes pode ofuscar os poucos achados verdadeiramente importantes, dificultando o raciocínio clínico e potencialmente atrasando o diagnóstico correto. Organizações como o Clinical and Laboratory Standards Institute (CLSI) fornecem diretrizes para a fase pré-analítica, visando minimizar erros, mas a indicação clínica apropriada é a primeira e mais crucial barreira de qualidade. A Sociedade Brasileira de Patologia (SBP), ao discutir a integração entre clínica e laboratório, reforça que a comunicação efetiva entre médico solicitante e patologista/clínico é vital para contextualizar resultados e evitar interpretações errôneas que podem prejudicar o paciente.

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