Doença Falciforme
A Doença Falciforme compreende um grupo de desordens genéticas autossômicas recessivas caracterizadas pela presença da hemoglobina S (HbS), resultante de uma mutação pontual no gene HBB localizado no cromossomo 11, onde há substituição do ácido glutâmico por valina na posição 6 da cadeia beta-globina. Esta alteração bioquímica confere à hemoglobina propriedades físico-químicas anômalas, particularmente sua polimerização quando submetida a condições de desoxigenação.
O processo fisiopatológico fundamental reside na polimerização da desoxi-hemoglobina S, formando longas fibras que distorcem a membrana eritrocitária, conferindo às hemácias a morfologia característica de "foice" ou "meia-lua". Estas células falcizadas apresentam plasticidade reduzida, aumento da adesividade ao endotélio vascular e meia-vida drasticamente encurtada (aproximadamente 10 a 20 dias, contrastando com os 120 dias das hemácias normais). As consequências clínicas derivam de dois fenômenos inter-relacionados: a anemia hemolítica crônica e os fenômenos vaso-oclusivos.
A vaso-oclusão, evento central na morbidade da doença, resulta da interação entre hemácias falcizadas, leucócitos ativados, plaquetas e células endoteliais, desencadeando cascata inflamatória que oclui a microvasculatura. Este processo manifesta-se clinicamente como crises álgicas intensas (dor óssea, torácica ou abdominal), síndrome torácica aguda (principal causa de mortalidade), acidente vascular cerebral, priapismo e necrose avascular, particularmente da cabeça femoral.
A heterogeneidade clínica é notável, influenciada por fatores genéticos moduladores como a presença concomitante de alfa-talassemia, níveis de hemoglobina fetal (HbF) e haplótipos do gene da beta-globina. Os haplótipos CAR (República Centro-Africana), BEN (Benin), SEN (Senegal) e Árabe-Índiano correlacionam-se com diferentes gravidades clínicas, sendo o haplótipo CAR associado a pior prognóstico.
O diagnóstico é estabelecido pela eletroforese de hemoglobina, confirmada por cromatografia líquida de alta eficiência (HPLC) ou focalização isoelétrica. A triagem neonatal, implementada no Brasil pelo Programa Nacional de Triagem Neonatal (PNTN), permite identificação precoce e instituição de medidas profiláticas como penicilinoprofilaxia, imunização abrangente e orientação familiar, reduzindo significativamente a mortalidade nos primeiros anos de vida.
O manejo terapêutico contemporâneo fundamenta-se na hidroxiureia, agente que eleva os níveis de hemoglobina fetal, reduz eventos vaso-oclusivos e melhora a sobrevida. Transfusões sanguíneas, seja em regime crônico ou de troca, constituem intervenção essencial na prevenção primária e secundária de acidentes vasculares cerebrais. O transplante de células-tronco hematopoéticas representa a única modalidade curativa estabelecida, embora reservada a pacientes com doador compatível e fenótipo clínico grave. Terapias gênicas emergentes, incluindo edição genética com CRISPR-Cas9 para reativação da hemoglobina fetal, apresentam resultados promissores em ensaios clínicos recentes.
Comentários
Postar um comentário