Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA)
A Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA) representa a forma mais comum de doença do neurônio motor no adulto, constituindo patologia neurodegenerativa progressiva e invariavelmente fatal, caracterizada pela degeneração seletiva dos neurônios motores superiores (córtex motor) e inferiores (tronco encefálico e medula espinhal). Sua incidência anual global situa-se entre 1,5 e 2,7 casos por 100.000 habitantes, com predomínio ligeiro no sexo masculino e idade média de início aos 58-63 anos.
A etiopatogenia da ELA revela-se multifatorial, envolvendo interação entre suscetibilidade genética e exposições ambientais. Aproximadamente 5-10% dos casos são familiares, com herança predominantemente autossômica dominante, associados a mais de 40 genes identificados. Os principais genes implicados incluem C9orf72 (expansão de hexanucleotídeo, mais frequente em populações europeias), SOD1 (primeiro gene identificado, associado a formas de progressão variável), TARDBP e FUS, ambos envolvidos no metabolismo do RNA e formação de agregados proteicos. Nos casos esporádicos, fatores ambientais como exposição a toxinas (metais pesados, pesticidas), trauma físico, atividade física extenuante e infecções virais têm sido investigados, embora sem estabelecimento definitivo de causalidade.
O mecanismo fisiopatológico central envolve morte seletiva de neurônios motores mediada por múltiplos processos inter-relacionados: estresse oxidativo, excitotoxicidade glutamatérgica (hiperativação de receptores AMPA e NMDA com influxo excessivo de cálcio), disfunção mitocondrial, estresse do retículo endoplasmático, inflamação neurogênica com ativação microglial e astrocitária, e agregação proteica anômala com formação de inclusões citoplasmáticas (inclusões de TDP-43 na maioria dos casos, exceto SOD1 e FUS). A degeneração Walleriana e propagação célula-a-célula de agregados proteicos (mecanismo prion-like) explicam a progressão anatômica característica.
Clinicamente, a ELA manifesta-se como fraqueza muscular progressiva, assimétrica, com distribuição variável conforme sítio de início. A forma espinhal (cerca de 70%) inicia-se em membros, superiores ou inferiores, com combinação de sinais de neurônio motor superior (espasticidade, hiperreflexia, sinal de Babinski) e inferior (atrofia, fasciculações, hiporreflexia tardia). A forma bulbar (aproximadamente 25%) apresenta-se com disartria, disfagia e disfonia, associada a atrofia lingual e fasciculações, com pior prognóstico. Formas respiratórias iniciais e comprometimento cognitivo-comportamental (15-50%, incluindo espectro frontotemporal) ampliam a complexidade sindrômica.
O diagnóstico permanece fundamentalmente clínico, baseado nos critérios de El Escorial revisados e Awaji, que integram achados clínicos e eletrofisiológicos. A eletroneuromiografia documenta denervação ativa e crônica, com potenciais de fasciculação complexos. A ressonância magnética de neuroeixo mostra-se essencial para exclusão de diagnósticos diferenciais (lesões compressivas, mielopatias). O tratamento etiológico permanece limitado, com o Riluzol (antiglutamatérgico) demonstrando modesta extensão de sobrevida (2-3 meses) e o Edaravone (antioxidante) aprovado em subgrupos específicos. O manejo multidisciplinar sintomático, incluindo suporte nutricional precoce (gastrostomia), ventilatório não invasivo, comunicação alternativa e cuidados paliativos, constitui pilar fundamental para qualidade de vida e sobrevida.
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