A publicação da ABNT NBR 15268:2025 pelo Comitê Brasileiro de Análises Clínicas e Diagnóstico In Vitro (ABNT/CB-36) representa um marco regulatório e técnico para os laboratórios clínicos nacionais que atuam no escopo da uroanálise. Esta norma não é uma mera atualização editorial; ela consolida uma nova filosofia de gestão da qualidade que integra, de forma indissociável, a competência profissional e gerencial à excelência assistencial e analítica . Ao estabelecer os requisitos para a realização do exame de urina, a norma abrange a totalidade do fluxo laboratorial, o chamado ciclo da qualidade, que se estende desde a orientação preliminar do paciente até a emissão final do laudo interpretativo. O objetivo precípuo é a obtenção de resultados analíticos com elevada veracidade, confiabilidade metrológica e, consequentemente, utilidade clínica para o diagnóstico, prognóstico e monitoramento terapêutico do paciente, promovendo seu bem-estar e segurança .
A estrutura da norma, composta por 78 páginas de especificações técnicas , reflete a complexidade e a multiplicidade de fatores intervenientes na análise da urina, um dos espécimes biológicos mais comuns, porém, paradoxalmente, um dos mais suscetíveis a variações pré-analíticas. A abordagem da ABNT NBR 15268:2025 é holística e sistemática. Ela reconhece que a qualidade do laudo final é diretamente proporcional ao rigor aplicado em cada etapa pregressa. Nesse sentido, a norma detalha meticulosamente as diretrizes para o preparo do paciente, considerando variáveis como estado de hidratação, prática de exercícios físicos, ciclo circadiano e, crucialmente, a interferência de fármacos e metabólitos na composição urinária. A coleta é padronizada com ênfase na técnica de jato médio, na higienização prévia e na utilização de recipientes estéreis e descartáveis que atendam a especificações que previnam a contaminação bacteriana exógena e a adsorção de analitos . A norma especifica, ainda, as condições críticas de armazenamento e transporte, estabelecendo, por exemplo, o prazo máximo de 2 horas entre a coleta e o processamento da amostra em temperatura ambiente, ou a necessidade de refrigeração a 2-8°C por períodos superiores, salvaguardando a integridade dos elementos formes e a estabilidade química do sedimento .
Um dos avanços paradigmáticos introduzidos por esta versão é a ênfase na interoperabilidade dos processos. Isso significa que os procedimentos de preparo, coleta, acondicionamento e transporte devem ser padronizados e comunicados de forma clara e eficaz não apenas internamente, mas também para os pacientes e para os serviços de saúde conveniados que realizam a coleta externa. A norma visa eliminar ambiguidades e reduzir a variabilidade interoperador, estabelecendo critérios objetivos e mensuráveis para a aceitação ou rejeição de amostras. Conforme detalhado em suas seções técnicas, amostras sem rotulagem correta, que apresentem evidências de contaminação, volume insuficiente para a execução completa dos exames solicitados, ou que tenham ultrapassado o tempo de trânsito permitido sem refrigeração adequada, devem ser prontamente rejeitadas e uma nova coleta deve ser solicitada . Este rigor na fase pré-analítica, frequentemente responsável pela maioria dos erros laboratoriais, é o alicerce sobre o qual se constrói a confiabilidade de toda a análise subsequente. Ao padronizar estas condutas, a ABNT NBR 15268:2025 eleva o patamar da qualidade, assegurando que a amostra que chega à bancada analítica seja a representação mais fidedigna possível do estado fisiológico ou fisiopatológico do paciente no momento da coleta.

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