Mucopolissacaridoses (MPS)
As Mucopolissacaridoses (MPS) constituem grupo de doenças lisossômicas de depósito, de herança autossômica recessiva (exceto MPS II, ligada ao X), caracterizadas pela deficiência de enzimas específicas envolvidas na degradação gradual dos glicosaminoglicanos (GAGs), anteriormente denominados mucopolissacarídeos. A incidência combinada das MPS varia entre 1:20.000 e 1:50.000 nascidos vivos, com distribuição diferencial conforme o tipo e população.
Os GAGs são longas cadeias de dissacarídeos repetidos, componentes fundamentais da matriz extracelular e superfície celular, classificados em dermatano sulfato, heparano sulfato, queratano sulfato, condroitina sulfato e ácido hialurônico. A degradação sequencial destas moléculas nos lisossomos requer ação coordenada de enzimas específicas; a deficiência de qualquer uma delas determina acúmulo progressivo de GAGs parcialmente degradados, desencadeando disfunção celular e tecidual por mecanismos que incluem distensão mecânica dos lisossomos, ativação inflamatória crônica, interferência na sinalização celular e apoptose.
A classificação das MPS baseia-se na deficiência enzimática específica e no padrão de GAGs acumulados/excretados, compreendendo 11 tipos com 7 diferentes enzimas (múltiplas nomenclaturas refletem o mesmo defeito enzimático): MPS I (deficiência de α-L-iduronidase, englobando fenótipos Hurler [grave], Hurler-Scheie [intermediário] e Scheie [atenuado]); MPS II (iduronato sulfatase, doença de Hunter, único tipo ligado ao X); MPS III (sulfamidase, tipos A-D, doença de Sanfilippo, predomínio neurológico); MPS IV (galactosamina-6-sulfatase [tipo A] e β-galactosidase [tipo B], doença de Morquio, predomínio esquelético); MPS VI (arilsulfatase B, doença de Maroteaux-Lamy, fenótipo somático grave sem comprometimento cognitivo); MPS VII (β-glucuronidase, doença de Sly, espectro variável); MPS IX (hialuronidase, raríssima, artropatia).
A apresentação clínica compartilha características comuns com gravidade variável: disostose múltipla (alterações esqueléticas progressivas: cifose, giba, deformidade em "remo" de costelas, mãos em garra), baixa estatura, fácies grosseira (fronte proeminente, ponte nasal deprimida, lábios espessados, macroglossia), hepatoesplenomegalia, opacidade corneana (exceto MPS II e III), perda auditiva, doença cardíaca valvar e das coronárias, hérnias umbilicais/inguinais recorrentes, e comprometimento respiratório obstrutivo/restritivo. O envolvimento neurológico varia: grave e progressivo nas MPS I grave, II grave e III (regressão neuropsicomotora, convulsões, distúrbios comportamentais), mínimo ou ausente nas MPS IV e VI.
O diagnóstico baseia-se na suspeita clínica, triagem por eletroforese de GAGs urinários (quantificação e perfil) e confirmação por ensaio enzimático específico em leucócitos, plasma ou fibroblastos, complementado por análise molecular para aconselhamento genético e identificação de heterozigotos. O diagnóstico pré-natal é possível por ensaio enzimático em vilosidades coriônicas ou amniócitos.
A abordagem terapêutica contemporânea inclui três modalidades principais: transplante de células-tronco hematopoéticas (TCTH), mais eficaz na MPS I grave (Hurler) se realizado precocemente (<18 meses) antes do desenvolvimento de comprometimento neurológico significativo; terapia de reposição enzimática (TRE) intravenosa disponível para MPS I (laronidase), MPS II (idursulfase), MPS IVA (elosulfase alfa), MPS VI (galsulfase) e MPS VII (vestronidase alfa), promovendo melhora de parâmetros somáticos (visceromegalias, apneia do sono, capacidade de caminhada) sem benefício neurológico (enzima não atravessa barreira hematoencefálica); e terapia de redução de substrato e terapia gênica (esta última, particularmente promissora com vetores AAV, em fases avançadas de investigação para MPS I, II e III). O manejo multidisciplinar sintomático (ortopedia, cardiologia, pneumologia, oftalmologia, neurocirurgia para hidrocefalia comunicante) permanece fundamental.
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