Osteogênese Imperfeita

 Osteogênese Imperfeita


A Osteogênese Imperfeita (OI), popularmente denominada "doença dos ossos de vidro", compreende grupo heterogêneo de desordens genéticas do tecido conjuntivo caracterizadas fundamentalmente por fragilidade óssea excessiva, decorrente de defeitos quantitativos ou qualitativos na síntese do colágeno tipo I, principal proteína estrutural da matriz extracelular óssea e de outros tecidos. A incidência estimada é de aproximadamente 1:15.000-20.000 nascidos vivos, com distribuição universal e predomínio de formas autossômicas dominantes.

O colágeno tipo I é uma proteína heterotrimérica composta por duas cadeias α1 e uma cadeia α2, codificada respectivamente pelos genes COL1A1 (cromossomo 17q21.33) e COL1A2 (cromossomo 7q22.1). Mutações nestes genes respondem por aproximadamente 85-90% dos casos, classicamente classificadas em dois mecanismos principais: mutações com perda de função (deleções, mutações nonsense) que determinam redução quantitativa de colágeno estruturalmente normal (haploinsuficiência), associadas a fenótipos mais leves (OI tipo I); e mutações de substituição de glicina na tripla hélice, que alteram a estrutura molecular e incorporam colágeno anômalo na matriz (efeito negativo dominante), resultando em fenótipos moderados a graves (OI tipos II-IV). As formas restantes (10-15%) envolvem mutações recessivas em genes relacionados ao processamento pós-traducional, modificação, secreção ou mineralização do colágeno (CRTAP, LEPRE1, PPIB, SERPINH1, FKBP10, SP7, BMP1, entre outros), expandindo a classificação atual para pelo menos 19 tipos.

A deficiência de colágeno tipo I na matriz óssea compromete a resistência biomecânica, resultando em ossos frágeis com reduzida capacidade de absorver energia, predispondo a fraturas ante traumas mínimos ou mesmo espontâneas. As manifestações clínicas, extremamente variáveis, incluem: fragilidade óssea com fraturas de repetição (número variável conforme gravidade), deformidades ósseas secundárias (angulação, encurtamento), escoliose, baixa estatura, escleras azuladas (visualização da coroide através da esclera delgada e translúcida), dentinogênese imperfeita (dentes opalescentes, amarelados, frágeis), perda auditiva progressiva (frequentemente mista, condutiva e neurossensorial, a partir da segunda década), hipermobilidade ligamentar, pele fina e translúcida, e fragilidade vascular com tendência a hematomas.

A classificação de Sillence (1979) permanece referencial: tipo I (leve, escleras azuis, dentina normal, fraturas pós-natais), tipo II (letal perinatal, múltiplas fraturas intraútero, insuficiência respiratória), tipo III (grave deformante progressivo, escleras azuladas ao nascimento tornando-se esbranquiçadas, dentinogênese imperfeita, fraturas intraútero e pós-natais, deformidades progressivas, baixa estatura extrema) e tipo IV (moderado, escleras esbranquiçadas, dentinogênese variável, deformidades variáveis). Tipos adicionais (V-XIX) complementam o espectro com achados específicos (calo hiperplásico no tipo V, etc.).

O diagnóstico fundamenta-se na avaliação clínico-radiológica (osteopenia generalizada, fraturas, deformidades, ossos wormianos no crânio), podendo ser complementado por análise molecular (sequenciamento de COL1A1/COL1A2 e painéis de genes recessivos) ou bioquímica (análise de colágeno em fibroblastos). O manejo terapêutico atual envolve abordagem multidisciplinar integrada: tratamento medicamentoso com bisfosfonatos (pamidronato, ácido zoledrônico) para aumento da densidade mineral óssea e redução da incidência de fraturas; cirurgias ortopédicas para correção de deformidades e estabilização de ossos longos (técnica de haste telescopada); reabilitação com fisioterapia motora e terapia ocupacional para otimização funcional; e suporte odontológico, audiológico e psicológico. Novas abordagens terapêuticas, incluindo anticorpo monoclonal anti-esclerostina (romosozumabe) e terapia celular com células-tronco mesenquimais, encontram-se em investigação clínica.



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