Pós-Análise, Validação e Expressão de Resultados com Conformidade Normativa

 Pós-Análise, Validação e Expressão de
 Resultados com Conformidade Normativa


A fase pós-analítica, frequentemente subestimada em seu potencial de introduzir erros, recebe atenção meticulosa na ABNT NBR 15268:2025, que estabelece diretrizes rigorosas para a validação, liberação e arquivamento dos resultados, bem como para a redação do laudo laboratorial. A validação técnica e clínica do exame de urina deixa de ser um ato meramente burocrático e se torna um processo intelectual complexo. O profissional responsável pela liberação deve correlacionar os achados das três esferas da análise as propriedades físicas (cor, aspecto, densidade), os resultados da bioquímica por tiras reativas e a microscopia do sedimento, verificando a coerência interna do laudo. Discrepâncias, como uma proteinuria intensa na fita sem a correspondente formação de cilindros hialinos ou granulosos na microscopia, ou uma piúria significativa sem a detecção de nitrito, devem ser avaliadas criticamente e, se necessário, investigadas antes da liberação.

Um dos aspectos mais inovadores e didáticos da norma é a reformulação da nomenclatura e da expressão dos resultados, visando eliminar ambiguidades e alinhar a comunicação laboratorial à prática clínica baseada em evidências. A norma é taxativa ao proibir o uso dos termos "negativo" e "positivo" para os achados bioquímicos e de sedimentoscopia . Em seu lugar, devem ser adotadas as expressões "não reagente" / "reagente" para os testes semi-quantitativos, ou "não detectável" / "detectável" para os métodos quantitativos. Esta mudança semântica é fundamental, pois "negativo" pode sugerir a ausência absoluta de uma substância, enquanto "não reagente" descreve com mais precisão um resultado abaixo do limiar de detecção do método. Da mesma forma, a terminologia para a descrição de células epiteliais é atualizada. A norma proíve expressões genéricas e tecnicamente imprecisas como "células do trato urinário inferior/superior", exigindo a utilização da nomenclatura histológica correta, como "células epiteliais escamosas", "células epiteliais de transição" (ou uroteliais) e "células epiteliais tubulares renais" .

Para os parâmetros quantitativos, a norma reforça a necessidade de se estabelecerem e comunicarem valores de referência biológicos, preferencialmente estratificados por sexo e faixa etária. As seções dedicadas a este fim especificam novos intervalos de referência padronizados para parâmetros como pH (entre 4,5 e 8,0), densidade urinária (variação de 1,003 a 1,035) e urobilinogênio (≤ 1,0 mg/dL), servindo como guia, mas sempre alertando para a necessidade de validação populacional . A expressão dos resultados da microscopia também é normatizada, exigindo a quantificação em unidades padronizadas, como o número de elementos por campo de grande aumento (para métodos manuais) ou por microlitro (para métodos automatizados). Ao estabelecer critérios claros para a rejeição de amostras na entrada e para a expressão inequívoca dos resultados na saída, a ABNT NBR 15268:2025 fecha o ciclo da qualidade. Ela garante que o laudo emitido seja o produto final de um processo rigorosamente controlado, documentado e livre de ambiguidades, fornecendo ao médico solicitante uma ferramenta diagnóstica de altíssimo valor intrínseco e promovendo, em última instância, a segurança e a satisfação do paciente, que são os objetivos maiores de toda a atividade laboratorial . A interoperabilidade e a padronização almejadas pela norma conectam, assim, o preparo inicial à interpretação clínica final, consolidando a uroanálise como um pilar da medicina diagnóstica de precisão.



Comentários