Síndrome de Turner

 Síndrome de Turner


A Síndrome de Turner (ST) configura-se como condição genética caracterizada pela ausência total ou parcial do segundo cromossomo sexual em indivíduos com fenótipo feminino, resultante de monossomia do cromossomo X (cariótipo 45,X) ou de outras alterações estruturais ou numéricas envolvendo o cromossomo X. Sua incidência estimada é de aproximadamente 1:2.000 a 1:2.500 nascidos vivos femininos, embora a frequência na concepção seja significativamente maior, com elevada taxa de abortamento espontâneo (99% das gestações 45,X não evoluem).

O cariótipo na ST apresenta considerável heterogeneidade: aproximadamente 40-50% dos casos apresentam monossomia completa 45,X (perda do cromossomo paterno na maioria); 15-25% apresentam mosaicismo (45,X/46,XX; 45,X/46,XY; 45,X/47,XXX); os demais apresentam alterações estruturais do cromossomo X (isocromossomo do braço longo [i(Xq)], deleções do braço curto [del(Xp)] ou anel do cromossomo X [r(X)]). O fenótipo resulta da haploinsuficiência de genes localizados no cromossomo X que escapam à inativação, particularmente na região pseudoautossômica do braço curto (PAR1), com destaque para o gene SHOX (Short Stature Homeobox), cuja deficiência explica a baixa estatura característica.

A fisiopatologia da ST envolve disgenesias gonadal (falência ovariana precoce por apoptose acelerada dos folículos ovarianos) e esquelética (deficiência de SHOX comprometendo a ossificação endocondral), além de anomalias linfáticas (hipoplasia de vasos linfáticos resultando em linfedema fetal e neonatal, e possivelmente anomalias cardíacas e renais). A expressão fenotípica é extremamente variável, influenciada pelo tipo de alteração cromossômica e presença de mosaicismo.

As principais manifestações clínicas incluem: baixa estatura (presente em 95-100%, geralmente evidente na infância, com altura final média 20 cm abaixo da média populacional sem tratamento); disgenesia gonadal com insuficiência ovariana (95% apresentam falência ovariana precoce, resultando em atraso/ausência puberal e infertilidade); anomalias cardíacas congênitas (30-40%, particularmente coarctação da aorta, válvula aórtica bicúspide, e dissecção aórtica, principal causa de mortalidade); anomalias renais (30-40%, incluem rim em ferradura, duplicação pielocalicial); características fenotípicas típicas (pescoço alado, implantação baixa de cabelos na nuca, tórax em alargado com mamilos hipoplásicos, cubitus valgo, linfedema de mãos e pés ao nascimento); e autoimunidade (tireoidite de Hashimoto, doença celíaca, diabetes tipo 1). A inteligência verbal geralmente é preservada, embora dificuldades específicas em habilidades visuoespaciais, matemática e funções executivas sejam comuns, requerendo avaliação neuropsicológica.

O diagnóstico baseia-se no cariótipo por banda G (análise de pelo menos 30 células para exclusão de mosaicismo), complementado por FISH ou microarray cromossômico para elucidação de alterações estruturais complexas e identificação de material derivado do Y (risco de gonadoblastoma). O manejo terapêutico compreende: hormônio de crescimento recombinante (rGH), iniciado precocemente (frequentemente a partir dos 4-5 anos) para otimização da altura final; terapia de reposição hormonal com estrogênios (indução puberal, geralmente a partir dos 11-12 anos, seguida por estroprogestativos); monitoramento cardiológico rigoroso (ecocardiograma seriado, ressonância magnética de aorta) com intervenção cirúrgica precoce conforme necessidade; acompanhamento nefrourológico; manejo de comorbidades autoimunes; suporte psicológico e abordagem multidisciplinar para questões de fertilidade (preservação de tecido ovariano em mosaicos com função ovariana residual, técnicas de reprodução assistida com doação de oócitos). O seguimento em centros especializados com transição planejada para o cuidado adulto mostra-se essencial para prevenção de complicações e otimização da qualidade de vida.




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