Nitrogênio Não Protéico

 Nitrogênio Não Protéico


O capítulo 15 da obra de Valter T. Motta aborda a fração do nitrogênio não proteico (NNP) presente no soro, composta por todos os compostos nitrogenados do plasma que não são proteínas. O rim desempenha papel fundamental na excreção da maioria dessas substâncias, e suas dosagens são essenciais para avaliar a função renal. Os principais componentes do NNP derivam do catabolismo de proteínas e ácidos nucleicos, sendo os mais relevantes: aminoácidos, amônia, ureia, creatinina e ácido úrico. Coletivamente, esses compostos representam cerca de 90% do nitrogênio não proteico na urina.


A ureia é o principal componente do NNP, constituindo cerca de 45% do nitrogênio não proteico sanguíneo. Ela é sintetizada no fígado a partir da amônia e dióxido de carbono, como forma de detoxificação da amônia, que é potencialmente tóxica. Após a síntese hepática, a ureia é transportada pelo plasma até os rins, onde é filtrada pelos glomérulos. Embora seja excretada na urina, 40 a 70% da ureia filtrada é reabsorvida passivamente nos túbulos renais. Uma fração significativa (cerca de um quarto) é metabolizada no intestino pela flora bacteriana, produzindo novamente amônia e CO₂, sendo a amônia reabsorvida e reconvertida em ureia no fígado. Os níveis plasmáticos de ureia são influenciados por múltiplos fatores: função renal, conteúdo proteico da dieta, grau de catabolismo proteico, estado de hidratação e presença de sangramento intestinal.

A elevação da ureia plasmática é denominada hiperuremia e pode ser classificada em três tipos: pré-renal, renal e pós-renal. A hiperuremia pré-renal ocorre por perfusão inadequada dos rins (ex.: insuficiência cardíaca congestiva grave, hemorragia, desidratação, choque), com função renal normal, mas filtração glomerular diminuída. Nesse caso, a ureia está elevada, mas a creatinina permanece normal. A hiperuremia renal resulta de doença renal aguda ou crônica (glomerulonefrites, necrose tubular aguda, nefrite intersticial, lesões vasculares), com queda da filtração glomerular abaixo de 50% do normal. A hiperuremia pós-renal é consequente à obstrução do trato urinário (cálculos, tumores, hipertrofia prostática), levando à reabsorção da ureia para a circulação. A hipouremia, ou níveis baixos de ureia, ocorre principalmente na hepatopatia grave, quando o fígado lesado não consegue sintetizar ureia a partir da amônia, resultando em encefalopatia hepática. A dosagem da ureia pode ser feita por métodos enzimáticos (urease, com quantificação da amônia gerada) ou químicos diretos. Valores de referência para adultos ambulatoriais situam-se entre 15 e 39 mg/dL.

A creatinina é outro importante marcador do nitrogênio não proteico, derivada do metabolismo da creatina muscular. Sua concentração sérica é diretamente proporcional à massa muscular e inversamente relacionada à taxa de filtração glomerular. Por ser produzida a taxas constantes e eliminada quase exclusivamente pelos rins, a creatinina é um marcador superior à ureia para avaliar a função renal, uma vez que sofre menos influência de fatores extrarrenais. Após transplante renal, pequenos aumentos da creatinina podem indicar rejeição do órgão. Níveis diminuídos não têm significância clínica relevante. A determinação da creatinina pode ser feita pelo método de Jaffé (reação com picrato alcalino), que sofre interferências de várias substâncias (glicose, ácido ascórbico, cefalosporinas, bilirrubinas, acetoacetato). Para maior especificidade, utilizam-se métodos cinéticos (medida da velocidade da reação) ou enzimáticos (creatinina amidohidrolase), além de cromatografia de alta eficiência. Os valores de referência são: homens 0,6 a 1,2 mg/dL; mulheres 0,6 a 1,1 mg/dL.

A depuração (clearance) da creatinina endógena é o método mais utilizado para estimar a taxa de filtração glomerular. Calcula-se pela fórmula C = UV/P, onde U é a concentração de creatinina na urina, V o volume urinário por minuto e P a concentração plasmática. O resultado é corrigido pela superfície corporal (1,73 m²). Valores reduzidos indicam queda da filtração glomerular em doenças renais agudas ou crônicas. Os valores de referência variam com a idade e o sexo: para homens de 20 a 30 anos, 88-146 mL/min/1,73 m²; para mulheres da mesma faixa, 81-134 mL/min/1,73 m², diminuindo progressivamente com o envelhecimento.

O ácido úrico é o principal produto do catabolismo das bases purínicas (adenina e guanina), formado principalmente no fígado pela ação da xantina oxidase. A maior parte do ácido úrico plasmático encontra-se na forma de urato monossódico. Sua produção diária é de cerca de 700 mg, com excreção urinária de 500 mg e fecal de 200 mg. Quase todo o ácido úrico filtrado pelos glomérulos é reabsorvido nos túbulos proximais, sendo pequenas quantidades secretadas nos túbulos distais. Os níveis plasmáticos variam conforme sexo (maiores em homens), obesidade, classe social (mais elevados em classes abastadas) e dieta (ricos em proteínas, purinas e álcool aumentam a uricemia). A hiperuricemia está associada à gota, doenças renais e alto turnover celular. A determinação do ácido úrico pode ser feita por redução do ácido fosfotúngstico (método inespecífico) ou por métodos enzimáticos com uricase (mais específicos), que medem a formação de alantoína e peróxido de hidrogênio. Valores de referência: homens 3,5 a 7,2 mg/dL; mulheres 2,6 a 6,0 mg/dL; excreção urinária de 24h: 250 a 750 mg/dia.

O capítulo detalha de forma sistemática os principais analitos da fração nitrogenada não proteica, suas origens metabólicas, significado clínico, causas de aumento e diminuição, métodos de dosagem e valores de referência, fornecendo base sólida para a interpretação laboratorial da função renal e distúrbios associados.

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