Bacteriologia Clínica
Cocos Gram-Positivos de Importância Médica
Diagnóstico de Gênero e Espécie
Os cocos gram-positivos constituem um dos grupos bacterianos de maior relevância clínica e laboratorial. Staphylococcus, Streptococcus e Enterococcus somam a maioria das infecções nosocomiais e comunitárias de gravidade moderada a severa. A identificação precisa a nível de espécie é mandatória, pois determina a escolha terapêutica, a investigação de mecanismos de resistência e as medidas de controle de infecção hospitalar.
O teste da catalase é o ponto de partida da identificação de cocos gram-positivos. A catalase converte peróxido de hidrogênio (H2O2) em água e oxigênio molecular. O teste é realizado depositando uma colônia em lâmina limpa e adicionando uma gota de H2O2 a 3%. O borbulhamento imediato (produção de O2) indica catalase positiva, gênero Staphylococcus e Micrococcus. A ausência de borbulhamento indica catalase negativa, gêneros Streptococcus, Enterococcus e outros estreptococos.
Um detalhe técnico frequentemente negligenciado: o teste não deve ser realizado com colônias provenientes de Ágar Sangue, pois as hemácias contêm catalase endógena, produzindo falso-positivo. Colônias de Ágar Chocolate também podem interferir. A colônia deve ser obtida de meio não hemático, preferencialmente de BHI ou TSA.
Após confirmação de catalase positiva, o teste da coagulase é o divisor fundamental dentro do gênero. A coagulase, enzima ou fator de superfície que promove coagulação do plasma, distingue Staphylococcus aureus (coagulase positiva) dos estafilococos coagulase-negativos (CoNS).
O teste em tubo (coagulase ligada ao fator plasmático, coagulase livre) é mais sensível e específico que o teste em lâmina (fator agrupante ou coagulase ligada). O plasma de coelho citratado é o substrato preferido. Leitura realizada após 4 horas a 37°C; tubos negativos são lidos novamente após 18-24 horas. Fibrinólise pós-coagulação pode produzir falso-negativo tardio em leituras de 24h.
Entre os CoNS, a sensibilidade à novobiocina (disco de 5 μg) separa S. saprophyticus (resistente - CMI ≥ 1,6 μg/mL) dos demais CoNS clinicamente relevantes (S. epidermidis, S. haemolyticus, S. lugdunensis, sensíveis). S. saprophyticus é patógeno genuíno de ITU em mulheres jovens e não deve ser considerado contaminante quando isolado em urocultura com contagem ≥ 10⁴ UFC/mL.
A classificação de Lancefield, baseada em polissacarídeos da parede celular (antígenos A, B, C, D, F, G), foi historicamente o padrão de identificação sorológica. Na rotina laboratorial moderna, a combinação de padrão de hemólise e testes bioquímicos simples fornece identificação presuntiva confiável.
Streptococcus pyogenes (grupo A de Lancefield): beta-hemolítico, sensível à bacitracina (disco 0,04 U — halo ≥ 10 mm), PYR positivo (pirrolidonil arilamidase). É o agente da faringoamigdalite estreptocócica e de complicações imunes graves como febre reumática e glomerulonefrite pós-estreptocócica.
Streptococcus agalactiae (grupo B): beta-hemolítico, resistente à bacitracina, CAMP-teste positivo (produtor de fator CAMP que potencializa a beta-toxina de S. aureus, formando zona característica em forma de seta). Principal agente de sepse e meningite neonatal; rastreamento em gestantes entre 35-37 semanas é mandatório.
Streptococcus pneumoniae: alfa-hemolítico, diplococo lanceolado encapsulado, solúvel em bile (bile-solubilidade positiva) e sensível à optoquina (disco de 5 μg — halo ≥ 14 mm). A sensibilidade à optoquina deve ser lida após 18-24h em CO2 a 5%, pois a incubação sem CO2 pode aumentar falsamente o halo. Isolamento de pneumococo em sangue ou líquor exige comunicação imediata ao médico.
Os enterococos crescem em condições extremas: NaCl 6,5%, bile 40%, temperatura de 10°C a 45°C, e pH de 9,6. Essa robustez metabólica reflete sua adaptação ao trato gastrointestinal e explica sua habilidade de persistir em superfícies hospitalares. O teste PYR positivo e a ausência de produção de ácido a partir de arabinose distinguem Enterococcus faecalis (PYR +, arginina dihidrolase +) de E. faecium (PYR +, arabinose +, maior frequência de resistência à vancomicina).
A identificação de enterococos VRE (vancomicin-resistant enterococci) tem implicações imediatas para o controle de infecção hospitalar. O resultado deve ser comunicado à CCIH antes mesmo da confirmação pelo TSA completo, quando o Etest ou o teste de triagem em Ágar BHI suplementado com vancomicina 6 μg/mL indicar resistência.
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