Bacteriologia Clínica - Enterobacterales e Bacilos Gram-Negativos Não Fermentadores: Abordagem Bioquímica e Identificação
Bacteriologia Clínica
Enterobacterales e Bacilos Gram-Negativos Não Fermentadores:
Abordagem Bioquímica e Identificação
A ordem Enterobacterales compreende a maior família de patógenos gram-negativos de importância médica. São bacilos gram-negativos, anaeróbios facultativos, oxidase negativos (com poucas exceções), que fermentam a glicose com ou sem produção de gás. Compreendem mais de 70 gêneros, sendo que um subconjunto de aproximadamente 15 gêneros concentra a imensa maioria das infecções clínicas relevantes.
O ágar TSI (Triple Sugar Iron) é o ponto de partida da identificação de enterobactérias. Contém três substratos fermentáveis (glicose, lactose, sacarose), indicador de pH vermelho de fenol, e sulfato ferroso para detecção de H2S. A inoculação é feita por picada no fundo e estriamento na rampa. A leitura após 18-24h a 37°C revela até seis informações em um único tubo.
O teste do Citrato de Simmons avalia a capacidade de utilizar citrato como única fonte de carbono. Bactérias positivas alcalinizam o meio (viragem para azul) por produção de carbonatos. Diferencia Citrobacter (citrato +) de Salmonella (a maioria citrato +) versus Shigella (citrato -) e E. coli (citrato -, com exceção de alguns biotipos).
O meio SIM (Sulfeto-Indol-Motilidade) avalia três características: produção de H2S a partir de tiossulfato (escurecimento), produção de indol a partir do triptofano (vermelho após adição de reagente de Kovacs), e motilidade (crescimento difuso além da linha de picada). E. coli: H2S negativo, Indol positivo, Motilidade positiva.
A prova da urease detecta a produção de urease, que hidrolisa a ureia em amônia e CO2, alcalinizando o meio (rosa intenso em ágar ureia de Christensen). Proteus spp. e Helicobacter pylori são urease fortemente positivos (viragem em até 4h); Klebsiella e alguns Enterobacter são fracamente positivos; E. coli e Shigella são negativos.
Os não fermentadores são bacilos gram-negativos que não fermentam glicose — apenas a oxidam ou são inertes frente a carboidratos. No TSI, produzem reação K/K (rampa e fundo alcalinos) ou K/NC (sem alteração no fundo). O teste da oxidase é fundamental: a maioria dos não fermentadores de relevância clínica é oxidase positiva (exceto Acinetobacter spp.).
Pseudomonas aeruginosa é o não fermentador mais frequente em infecções oportunistas. Cresce a 42°C (característico), produz piocianina (pigmento azul-esverdeado fluorescente), odor adocicado de uva (atribuído à aminoacetofenona), e é resistente intrinsecamente a muitos antimicrobianos pela combinação de beta-lactamases cromossômicas, bombas de efluxo e baixa permeabilidade de membrana externa. Colônias em Ágar Sangue frequentemente mostram beta-hemólise e morfologia característica rugosa ou mucosa (formação de biofilme).
Acinetobacter baumannii destaca-se por sua extraordinária capacidade de sobrevivência em superfícies secas (até semanas), oxidase negativa, imóvel, e perfil crescente de multirresistência (MDRAB). Em UTIs, constitui problema epidemiológico de primeira ordem. A identificação fenotípica pode ser desafiadora; MALDI-TOF ou sequenciamento molecular frequentemente são necessários para distinção de espécies dentro do complexo Acinetobacter calcoaceticus-baumannii.
Stenotrophomonas maltophilia é intrinsecamente resistente a carbapenemas (produz metalo-beta-lactamases L1 e L2 cromossômicas), sendo identificada pela oxidase variável (fraca positiva a negativa), produção de DNase em ágar DNA e resistência a imipenem com sensibilidade ao trimetoprim-sulfametoxazol.
Comentários
Postar um comentário