Bacteriologia Clínica
Gestão da Fase Pré-Analítica: Do Sítio de Infecção à Triagem no Laboratório
A fase pré-analítica é, paradoxalmente, a mais subestimada e a mais determinante do processo diagnóstico microbiológico. Estudos consistentes demonstram que 46 a 68% dos erros laboratoriais ocorrem antes que qualquer procedimento técnico seja iniciado no laboratório. Na bacteriologia, esses erros podem comprometer irreversivelmente a viabilidade do microrganismo, introduzir contaminantes ou tornar o resultado clinicamente ininterpretável.
Critérios de Aceitabilidade e Rejeição de Amostras
A triagem na recepção do laboratório deve ser encarada como a primeira etapa diagnóstica. Toda amostra que ingressar no setor de microbiologia precisa ser avaliada segundo critérios objetivos antes de ser processada. A rejeição de uma amostra inadequada não é um obstáculo ao diagnóstico, é a prevenção de um resultado falso que pode custar a vida do paciente.
Os critérios de rejeição são classificados em absolutos e relativos. Os critérios absolutos determinam descarte imediato e nova coleta: amostra sem identificação ou com identificação divergente do pedido médico; recipiente inadequado para o tipo de amostra; volume claramente insuficiente para o número de exames solicitados; temperatura de transporte incompatível com a viabilidade do agente suspeito; e amostras em recipientes visivelmente comprometidos (vazamento, quebra).
Os critérios relativos exigem comunicação com o solicitante antes da decisão: coleta em horário incompatível com o quadro clínico (ex.: urina de paciente com suspeita de ITU coletada após esvaziamento vesical recente); atraso no transporte que excede o limite recomendado para o sítio anatômico; e volume limítrofe que permite apenas um subconjunto dos exames solicitados.
Técnicas de Coleta por Sítio Anatômico
Hemocultura: a coleta deve ser realizada preferencialmente antes do início da antibioticoterapia, durante o pico febril ou calafrio. Recomenda-se a obtenção de dois a três pares de frascos (aeróbio/anaeróbio) de sítios venosos distintos, com intervalo de 10 a 30 minutos entre cada coleta quando a bacteremia subaguda é suspeita. O volume de sangue é o fator isolado mais importante para a positividade: 8 a 10 mL por frasco em adultos. A antissepsia rigorosa da pele com clorexidina alcoólica a 2% (aguardando secagem completa por 30 segundos) é indispensável para minimizar contaminação por flora cutânea.
Líquor: o processamento deve ser imediato; Neisseria meningitidis e Streptococcus pneumoniae são extremamente sensíveis às variações de temperatura e à ação do complemento presente no LCR. O tubo destinado à bacteriologia (geralmente o tubo 2 ou 3) deve ser encaminhado ao laboratório em temperatura ambiente e processado em até 15 minutos.
Urina: a urina de jato médio permanece o método de referência para pacientes ambulatoriais. A higiene prévia da região periuretral é etapa crítica frequentemente negligenciada. Em pacientes sondados, a coleta deve ser realizada por punção do cateter com seringa e agulha, nunca da bolsa coletora. Urina de segundo jato coletada sem higiene prévia não deve ser aceita para urocultura.
Escarro: a qualidade microscópica do escarro precede qualquer cultivo. A avaliação semiquantitativa de leucócitos e células epiteliais escamosas no exame a fresco (critério de Murray e Washington modificado) é padrão. Amostras com mais de 10 células epiteliais por campo de menor aumento (100x) representam contaminação oral e devem ser rejeitadas.
Meios de Transporte
A seleção do meio de transporte é guiada pelo tipo de amostra, pelo microrganismo suspeito e pelo tempo previsto até o processamento. O meio de Stuart, formulado com glicerol e tioglicolato, preserva a viabilidade de bactérias aeróbias e anaeróbias facultativas por até 24 horas. O meio de Cary-Blair, com menor potencial de oxidorredução e pH tamponado a 8,4, é o padrão ouro para amostras fecais com suspeita de patógenos entéricos, especialmente Vibrio cholerae e Campylobacter spp.
Impacto do Uso Prévio de Antimicrobianos
A antibioticoterapia prévia é um dos principais fatores de positividade reduzida em culturas bacterianas. Beta-lactâmicos, por exemplo, podem inibir o crescimento de microrganismos sensíveis mesmo quando o nível sérico já está abaixo do limiar terapêutico, pois pequenas quantidades persistem na amostra. Os frascos de hemocultura modernos contêm resinas adsortoras que neutralizam parcialmente essa interferência, mas não a eliminam por completo.
Quando o início da antibioticoterapia é inevitável antes da coleta, o analista deve registrar essa informação no laudo, interpretar resultados negativos com cautela e, se possível, indicar ao clínico a necessidade de coleta seriada após janela de 48 horas sem antibiótico. Em situações de sepse grave, todavia, a coleta antes do antimicrobiano não deve retardar o tratamento, as hemoculturas devem ser obtidas rapidamente, mas o tratamento tem precedência absoluta sobre o timing ideal de coleta.
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