Avaliação da Função Renal e Homeostase
de Biomoléculas Nitrogenadas
Ureia, creatinina, cistatina C e estimativa da filtração
glomerular
Os rins exercem funções essenciais à homeostase: filtram o plasma,
reabsorvem nutrientes e íons essenciais, excretam produtos nitrogenados do
catabolismo proteico, regulam o equilíbrio ácido-base e participam da síntese
de eritropoetina e da ativação da vitamina D. A avaliação laboratorial da
função renal constitui, portanto, um pilar fundamental da bioquímica clínica.
A ureia é o produto final do catabolismo das proteínas: os aminoácidos
desaminados no fígado geram amônia, que é convertida em ureia pelo ciclo da
ureia. A ureia filtrada livremente pelo glomérulo sofre reabsorção tubular
parcial, cerca de 40 a 50%, e sua concentração sérica é influenciada não
apenas pela função renal, mas também pelo aporte proteico da dieta, estado de
hidratação e taxa de catabolismo proteico. Quadros de desidratação, sangramento
gastrointestinal e uso de corticosteroides podem elevar a ureia sem que haja
comprometimento renal propriamente dito, o que limita sua especificidade como
marcador isolado de função glomerular.
A creatinina é um produto do metabolismo do fosfocreatina muscular,
gerado em taxa relativamente constante proporcional à massa muscular. É
livremente filtrada pelo glomérulo e sofre pequena secreção tubular, sem
reabsorção significativa. Sua concentração sérica é inversamente proporcional à
taxa de filtração glomerular, mas essa relação não é linear: a creatinina só
começa a elevar-se de maneira perceptível quando há perda de mais de 50% da
função renal, o que a torna um marcador tardio de lesão. Além disso, indivíduos
com pouca massa muscular, idosos, desnutridos, paraplégicos, podem ter
creatinina sérica dentro dos limites de referência mesmo com função renal
comprometida.
O ácido úrico, produto final do catabolismo das purinas, é filtrado e
parcialmente reabsorvido e secretado pelos túbulos renais. Sua elevação, hiperuricemia, pode refletir produção aumentada (gota primária, síndrome de
lise tumoral), redução da excreção renal (insuficiência renal, medicamentos
uricossúricos) ou ambas. Seu acúmulo tecidual origina cristais de urato
monossódico, com deposição articular e nos tecidos moles.
A cistatina C representa um avanço significativo na avaliação da função
renal. Trata-se de um inibidor de cisteíno-proteases produzido em taxa
constante por todas as células nucleadas, filtrado livremente pelo glomérulo e
completamente catabolizado no túbulo proximal, sem secreção tubular
significativa. Sua concentração sérica é virtualmente independente de massa
muscular, sexo, idade e composição corporal, tornando-a marcador mais precoce e
específico de declínio da filtração glomerular do que a creatinina.
A Taxa de Filtração Glomerular Estimada (eGFR) é o principal índice clínico de função renal. Historicamente calculada pelo Clearance de Creatinina em urina de 24 horas (fórmula de Cockcroft-Gault), esse método caiu em desuso pela inconveniência da coleta cronometrada, pelos erros de coleta e pela variabilidade intrínseca. As equações baseadas em biomarcadores séricos, especialmente a CKD-EPI (Chronic Kidney Disease Epidemiology Collaboration), oferecem estimativa superior sem necessidade de urina de 24 horas. A equação CKD-EPI 2021, que pode incorporar creatinina e/ou cistatina C, é recomendada pelas principais diretrizes nefrológicas internacionais por sua acurácia em diferentes populações, incluindo a brasileira. O estadiamento da doença renal crônica pela KDIGO segue categorias de G1 a G5 conforme a eGFR e categorias de albuminúria A1 a A3, e o laboratório deve reportar a eGFR calculada junto à creatinina sérica em todos os laudos de adultos acima de 18 anos. Essa prática simples tem impacto direto na detecção precoce e no manejo adequado da doença renal crônica, condição ainda subdiagnosticada na atenção primária.
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