Bioquímica Urinária e Urinálise Clínico-Laboratorial

 Bioquímica Urinária e
Urinálise Clínico-Laboratorial


EAS, proteinúria e correlações na doença renal e sistêmica

A urina é uma janela metabólica única: nela se depositam produtos finais do metabolismo, substâncias filtradas e secretadas pelos rins, marcadores de inflamação, infecção e lesão glomerular ou tubular. O Exame de Urina Rotina, também denominado EAS (Elementos e Sedimento) ou Tipo 1, é um dos exames mais solicitados em medicina e, paradoxalmente, um dos mais subestimados em sua complexidade interpretativa.

A amostra urinária ideal para análise rotineira é o jato médio da primeira micção da manhã, que apresenta maior concentração e menor contaminação bacteriana por longa permanência na bexiga. A amostra deve ser processada em até duas horas da coleta; o retardo provoca alcalinização pela degradação da ureia em amônia por bactérias, dissolução de cilindros e destruição celular, comprometendo a sedimentoscopia.

A fita reagente, tira de urina, realiza análise semiquantitativa de múltiplos parâmetros bioquímicos simultâneos por reações colorimétricas específicas. O pH urinário normalmente varia de 4,5 a 8,0; valores persistentemente alcalinos sugerem infecção por bactérias produtoras de urease ou acidose tubular renal. A densidade informa a capacidade de concentração renal, com valores entre 1.001 e 1.035. A proteína é detectada pela fita por método colorimétrico sensível a albumina, o que representa o primeiro ponto crítico de falso-negativo: a fita não detecta adequadamente proteínas de Bence-Jones (imunoglobulinas monoclonais de baixo peso molecular), relevantes no mieloma múltiplo. A glicose, normalmente ausente, surge quando a glicemia supera o limiar de reabsorção tubular, por volta de 180 a 200 mg/dL.

A cetonúria é frequente em cetoacidose diabética, jejum prolongado, vômitos e estados hipercatabólicos. O sangue na fita reage tanto à hemoglobina livre quanto à mioglobina, sem distinguir hematúria verdadeira de hemoglobinúria ou mioglobinúria, distinção feita pelo exame microscópico do sedimento. A bilirrubina e o urobilinogênio são marcadores de metabolismo hepático: bilirrubina positiva na urina indica colestase ou hepatite com elevação de bilirrubina direta; urobilinogênio elevado ocorre em hemólise e hepatopatias sem obstrução completa. A leucocitúria estimada pela fita detecta a esterase leucocitária, enzima de neutrófilos, e a nitrituúria detecta nitritos produzidos por bactérias gram-negativas, sendo a combinação de ambas altamente sugestiva de infecção do trato urinário.

O sedimento urinário, examinado ao microscópio após centrifugação, revela elementos formados: eritrócitos, leucócitos, células epiteliais, cilindros e cristais. Os cilindros são estruturas formadas no lúmen tubular pela precipitação da proteína de Tamm-Horsfall; sua morfologia orienta o diagnóstico, cilindros granulosos ou hemáticos indicam glomerulonefrite aguda; cilindros leucocitários, nefrite intersticial ou pielonefrite; cilindros céreos, doença renal crônica avançada.

Para a quantificação da proteinúria, a proteinúria de 24 horas é o padrão histórico, mas apresenta alto índice de erros de coleta e inconveniência logística. A Relação Proteína/Creatinina (RPC) em amostra isolada, de preferência matinal, oferece excelente correlação com a proteinúria de 24 horas e é atualmente recomendada pelas diretrizes. A microalbuminúria, definida pela excreção de 30 a 300 mg de albumina por grama de creatinina, é o marcador mais precoce de nefropatia diabética e também um marcador independente de risco cardiovascular. O rastreamento regular da microalbuminúria em diabéticos e hipertensos é, portanto, uma intervenção de elevado impacto em saúde pública, para a qual o laboratório clínico tem responsabilidade direta.

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