Dislipidemias e Avaliação do Risco Cardiovascular

 Dislipidemias e Avaliação
do Risco Cardiovascular

Metabolismo lipoproteico, cálculo de risco e novos biomarcadores

As doenças cardiovasculares representam a principal causa de mortalidade no Brasil e no mundo, e a bioquímica clínica desempenha papel insubstituível na estratificação do risco individual. A compreensão do metabolismo das lipoproteínas é, portanto, não apenas um conteúdo teórico, mas uma ferramenta de prevenção de mortes.

As lipoproteínas são complexos macromoleculares compostos por lipídeos, triglicerídeos, colesterol esterificado e livre, fosfolipídeos, e proteínas específicas denominadas apolipoproteínas. Cada classe lipoproteica possui função, composição e risco cardiovascular distintos. Os quilomícrons transportam lipídeos de origem alimentar do intestino ao tecido periférico, sendo rapidamente depurados do plasma em indivíduos normais. A VLDL (lipoproteína de muito baixa densidade) é produzida no fígado, rica em triglicerídeos endógenos, e após hidrólise por lipases periféricas origina a LDL. A LDL, rica em colesterol, é a principal transportadora de colesterol para os tecidos periféricos e o maior alvo terapêutico no controle do risco cardiovascular. A HDL exerce papel protetor ao realizar o transporte reverso do colesterol, removendo-o dos tecidos e transportando-o de volta ao fígado para excreção biliar.

O perfil lipídico convencional inclui colesterol total, LDL-colesterol, HDL-colesterol e triglicerídeos. O LDL-colesterol é classicamente calculado pela equação de Friedewald: LDL = Colesterol Total − HDL − (Triglicerídeos ÷ 5). Esta fórmula, amplamente utilizada, perde precisão quando os triglicerídeos superam 400 mg/dL, pois subestima o LDL-colesterol real. A equação de Martin-Hopkins, derivada de estudo com mais de 1,3 milhão de pacientes, utiliza um fator divisor variável de acordo com a concentração de triglicerídeos e não-HDL-colesterol, oferecendo estimativa significativamente mais acurada em hipertrigliceridemias moderadas.

As diretrizes cardiovasculares mais recentes da Sociedade Brasileira de Cardiologia, da ESC europeia e da AHA americana, incorporaram novos biomarcadores que ampliam a avaliação do risco além do perfil lipídico clássico. A Apolipoproteína B (ApoB) é a proteína estrutural de todas as lipoproteínas aterogênicas (VLDL, IDL, LDL e Lp(a)), e sua dosagem fornece a contagem direta do número de partículas aterogênicas circulantes, informação superior ao LDL-colesterol em termos de risco residual. A Apolipoproteína A-I (ApoA-I), principal proteína da HDL, pode ser dosada como marcador de capacidade protetora. A Lipoproteína(a). Lp(a), é uma partícula geneticamente determinada, altamente aterogênica e trombogênica, cujos níveis não são adequadamente controlados por estatinas, justificando sua dosagem na investigação de risco cardiovascular elevado sem explicação aparente.

Um ponto de grande relevância clínico-laboratorial diz respeito à flexibilização do jejum para o perfil lipídico. As diretrizes internacionais mais recentes passaram a aceitar a coleta não jejum para triagem lipídica, uma vez que as concentrações de colesterol total, LDL e HDL variam muito pouco após refeição. Os triglicerídeos são a única fração significativamente afetada pelo estado pós-prandial. Assim, em laudos de amostras coletadas sem jejum, o laboratório deve registrar explicitamente a condição da coleta e adotar limites de referência adaptados.

O cálculo do risco cardiovascular global integra colesterol, pressão arterial, tabagismo, diabetes, idade e sexo em escores validados como o Escore de Risco Global da SBC ou o Escore de Framingham. A estratificação resulta em risco baixo, intermediário, alto ou muito alto, guiando as metas terapêuticas de LDL-colesterol e a necessidade de tratamento farmacológico. O laboratorista deve conhecer esse contexto para que seus laudos sejam instrumentos efetivos de comunicação com o clínico, e não apenas valores isolados desprovidos de significado integrado.

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