Distúrbios Ácido-Base
e Gasometria Arterial
Interpretação sistemática, sistemas tampão e anion gap
A manutenção do pH sanguíneo em uma faixa estreita, entre 7,35 e 7,45, é condição essencial para o funcionamento de enzimas, canais iônicos,
receptores de membrana e para a condução neuronal. Desvios de pH, mesmo
pequenos, comprometem funções vitais de forma dramática. Compreender os
distúrbios ácido-base e dominar a interpretação da gasometria arterial é,
portanto, uma competência fundamental para o analista clínico e para o clínico
que utiliza esses resultados em tomadas de decisão de alta criticidade.
Os sistemas tampão biológicos são a primeira linha de defesa contra
variações agudas de pH. O sistema tampão bicarbonato-ácido carbônico é o mais
importante no plasma, representando mais de 50% da capacidade tamponante total
do sangue. A equação de Henderson-Hasselbalch, pH = 6,1 + log([HCO₃⁻] / 0,03 ×
pCO₂), permite compreender como o pH depende da relação entre o componente
metabólico (bicarbonato, regulado pelos rins) e o componente respiratório
(pCO₂, regulado pelos pulmões). Outros sistemas tampão relevantes são os
fosfatos inorgânicos e as proteínas plasmáticas, especialmente a hemoglobina.
A interpretação sistemática da gasometria arterial deve seguir uma
abordagem sequencial rigorosa. O primeiro passo é avaliar o pH: acidemia (pH
< 7,35) ou alcalemia (pH > 7,45). O segundo passo é identificar o
distúrbio primário: se acidemia, há acidose respiratória (pCO₂ elevado) ou
acidose metabólica (HCO₃⁻ baixo)? Se alcalemia, há alcalose respiratória (pCO₂
baixo) ou alcalose metabólica (HCO₃⁻ elevado)? O terceiro passo é verificar a
compensação: os rins compensam distúrbios respiratórios por meio de retenção ou
excreção de bicarbonato (resposta lenta, dias); os pulmões compensam distúrbios
metabólicos por hiperventilação ou hipoventilação (resposta rápida, horas).
Compensações inadequadas, abaixo ou acima do esperado, sugerem distúrbios
mistos.
O Anion Gap (AG) é calculado como: AG = Na⁺ − (Cl⁻ + HCO₃⁻), com valor de
referência entre 8 e 12 mEq/L. Representa os ânions não mensurados, albumina,
fosfatos, sulfatos e ácidos orgânicos. Na acidose metabólica, o cálculo do AG é
essencial para o diagnóstico diferencial: AG elevado indica acúmulo de ácidos
não dosados rotineiramente (cetoacidose, acidose lática, uremia, intoxicações
por metanol ou salicilatos); AG normal indica perda de bicarbonato ou ganho de
cloro (diarreias, acidose tubular renal, uso de cloreto de amônio).
A coleta da gasometria arterial exige técnica rigorosa por punção da
artéria radial (mais comum), femoral ou braquial. A amostra deve ser coletada
em seringa heparinizada, completamente selada, sem bolhas de ar, que
equilibram os gases com a atmosfera, alterando pCO₂ e pO₂. A análise deve ser
realizada imediatamente ou a amostra mantida em gelo e analisada em até 30 a 60
minutos. Leucocitose intensa pode provocar consumo de oxigênio in vitro entre a
coleta e a análise, fenômeno denominado leucocite larceny, simulando
hipoxemia.
Os parâmetros adicionais da gasometria, pO₂, saturação de oxigênio (SatO₂), lactato e excesso de bases (BE), complementam a análise. O lactato elevado, especialmente acima de 2 mmol/L, indica hipoperfusão tecidual e é marcador prognóstico em sepse, choque e baixo débito cardíaco. A gasometria arterial, em mãos experientes, é a fotografia instantânea mais completa do estado fisiológico do paciente gravemente enfermo.
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