Distúrbios do Metabolismo dos
Carboidratos e Diabetes Mellitus
O diabetes mellitus constitui uma das condições crônicas de maior impacto
epidemiológico no mundo contemporâneo, afetando mais de 530 milhões de pessoas
globalmente segundo estimativas recentes. Mais do que uma doença, representa um
grupo heterogêneo de distúrbios metabólicos que têm em comum a hiperglicemia
crônica, resultante de defeitos na secreção de insulina, na sua ação
periférica, ou em ambos os mecanismos simultaneamente.
O Diabetes Mellitus Tipo 1 é uma doença autoimune na qual linfócitos T
citotóxicos destroem seletivamente as células beta das ilhotas de Langerhans,
suprimindo a produção de insulina de forma progressiva e quase total. O
resultado é uma dependência absoluta de insulina exógena e tendência à
cetoacidose diabética. O Tipo 2, por sua vez, é marcado pela resistência
periférica à insulina, especialmente no tecido muscular, hepático e adiposo, combinada com falência progressiva das células beta. Responde por mais de 90%
dos casos mundiais e possui forte associação com obesidade, sedentarismo e
síndrome metabólica. O Diabetes Gestacional surge durante a gravidez,
geralmente no segundo ou terceiro trimestre, por aumento da resistência
insulínica mediada por hormônios placentários, e exige atenção redobrada pelo
risco perinatal associado.
Os critérios diagnósticos vigentes, estabelecidos pela Organização
Mundial da Saúde e pela Sociedade Brasileira de Diabetes, reconhecem quatro
situações diagnósticas: glicemia de jejum igual ou superior a 126 mg/dL em duas
ocasiões distintas; glicemia de duas horas no Teste Oral de Tolerância à
Glicose (TOTG) igual ou superior a 200 mg/dL; glicemia ao acaso superior a 200
mg/dL na presença de sintomas clássicos; ou hemoglobina glicada (HbA1c) igual
ou superior a 6,5%. A zona de alerta para pré-diabetes é caracterizada por
glicemia de jejum entre 100 e 125 mg/dL, glicemia no TOTG de 140 a 199 mg/dL,
ou HbA1c entre 5,7% e 6,4%.
O TOTG merece destaque por sua sensibilidade diagnóstica superior à
glicemia de jejum isolada. O teste exige jejum de 8 a 12 horas, coleta de
amostra basal e ingestão de 75 g de glicose anidra dissolvida em 300 mL de
água, com nova coleta após duas horas. No contexto gestacional, utiliza-se o
protocolo modificado com carga de 75 g e pontos de corte específicos.
A hemoglobina glicada representa a fração da hemoglobina que sofreu
glicação não-enzimática em sua cadeia beta, de forma proporcional à glicemia
média dos últimos 90 a 120 dias, o tempo de vida médio do eritrócito. É o
exame mais valorizado tanto para diagnóstico quanto para monitoramento de longo
prazo, com meta terapêutica geralmente inferior a 7% para a maioria dos
pacientes. A padronização metodológica é fundamental: o método de referência
internacional é a cromatografia de troca catiônica de alto desempenho (HPLC), e
os laboratórios devem utilizar equipamentos certificados pelo programa
NGSP/IFCC. Discrepâncias podem ocorrer em pacientes com hemoglobinopatias,
anemias hemolíticas ou deficiência de ferro, situações em que a vida útil do
eritrócito está alterada, comprometendo a confiabilidade do exame.
A frutosamina, por sua vez, reflete a glicação de proteínas plasmáticas, sobretudo albumina que representa a glicemia média dos últimos 14 a 21 dias. É
útil em situações em que a HbA1c não é confiável.
Entre as complicações agudas, a cetoacidose diabética (CAD) é caracterizada pela tríade hiperglicemia, cetonemia e acidose metabólica de ânion-gap elevado, resultante da lipólise descontrolada na ausência de insulina. O estado hiperosmolar hiperglicêmico (EHH) ocorre sobretudo no Tipo 2, com hiperglicemia extrema, hiperosmolaridade plasmática e ausência de cetose significativa. O laboratório desempenha papel central no diagnóstico e acompanhamento dessas emergências, monitorando glicemia, cetonemia, gasometria, eletrólitos e função renal em tempo real.
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