Garantia da Qualidade Analítica no
Laboratório de Bioquímica
Westgard, Levey-Jennings, sigmametria e validação de corridas analíticas
A excelência analítica de um laboratório clínico não se mede apenas pela
modernidade de seus equipamentos ou pelo número de exames processados por hora,
mas fundamentalmente pela solidez de seu sistema de gestão da qualidade. O
objetivo final é simples de enunciar e complexo de executar: garantir que cada
resultado liberado seja confiável o suficiente para embasar uma decisão
clínica, seja ela a prescrição de um medicamento, a indicação de uma cirurgia
ou o diagnóstico de uma doença crônica.
O Controle Interno da Qualidade (CIQ) é a ferramenta que permite ao laboratório
monitorar, em tempo real, o desempenho de cada método analítico a cada corrida
de trabalho. Os materiais de controle, amostras com concentração conhecida dos
analitos, são inseridos nas corridas juntamente com as amostras dos pacientes.
Seus resultados são lançados em Gráficos de Levey-Jennings, que representam a
distribuição acumulada dos valores de controle ao longo do tempo, tendo como
eixo horizontal os dias ou corridas e como eixo vertical os desvios-padrão (DP)
em relação à média do controle. Em condições ideais, um sistema analítico sob
controle produzirá resultados de controle distribuídos aleatoriamente em torno
da média, com 95% dos valores dentro de ±2 DP.
As Regras Múltiplas de Westgard fornecem um sistema estruturado de tomada
de decisão sobre o status de uma corrida analítica. A regra 1₂s, resultado
fora de ±2 DP, é apenas um aviso, uma regra de alerta que não por si só
rejeita a corrida, mas aciona a análise das demais regras. A regra 1₃s, resultado fora de ±3 DP, indica erro aleatório e rejeita a corrida. A regra
2₂s, dois controles consecutivos no mesmo lado de ±2 DP, indica desvio
sistemático. A regra R₄s, diferença de 4 DP entre dois controles na mesma
corrida, indica imprecisão elevada. A regra 4₁s, quatro controles consecutivos
no mesmo lado de ±1 DP, indica tendência sistemática. A regra 10x, dez
controles consecutivos no mesmo lado da média, indica desvio sistemático
persistente. A aplicação conjunta dessas regras minimiza tanto a rejeição de
corridas aceitáveis quanto a liberação de corridas com erros significativos.
O Erro Total Permitido (ETa) é definido com base no impacto clínico
tolerável para cada analito e constitui a meta de qualidade do laboratório. O
Erro Total observado (Et) é calculado como a soma do viés sistemático
(inexatidão) e da imprecisão: Et = |viés| + Z × CV, onde Z é o escore z
correspondente à probabilidade de erro desejada (geralmente 1,65 para 95% de
confiança) e CV é o coeficiente de variação. A comparação entre Et e ETa
permite julgar objetivamente se o método analítico está funcionando dentro de
padrões aceitáveis.
A Sigmametria é uma abordagem quantitativa que integra imprecisão,
inexatidão e meta de qualidade em um único índice: o valor Sigma = (ETa −
|viés|) / CV. Métodos com sigma igual ou superior a 6 são considerados de
excelência, praticamente imunes a erros analíticos significativos, permitindo
CIQ simplificado. Sigma entre 3 e 6 requerem controles mais frequentes e regras
adicionais de Westgard. Sigma abaixo de 3 indica método com desempenho
inadequado, exigindo intervenção técnica.
O Controle Externo da Qualidade (CEQ), também denominado Ensaio de Proficiência, complementa o CIQ ao avaliar o desempenho do laboratório em comparação com outros laboratórios participantes de programas nacionais ou internacionais. Os principais programas no Brasil são coordenados pela SBPC/ML e pela PNCQ. A participação regular em programas de proficiência é obrigatória para a acreditação laboratorial pela norma ABNT NBR ISO 15189 e contribui para a harmonização dos resultados entre laboratórios. Ao final, a garantia da qualidade analítica é o ato pelo qual o analista clínico cumpre seu papel mais essencial: ser o guardião da confiabilidade do diagnóstico laboratorial, protegendo o paciente com rigor, ciência e ética.
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