Marcadores Tumorais na
Rotina Diagnóstica e Monitoramento
Os marcadores tumorais são biomoléculas, proteínas, antígenos, hormônios ou substâncias metabólicas, produzidas por células tumorais ou pelo organismo em resposta à presença de um tumor, detectáveis no sangue, urina ou tecidos. Sua aplicação clínica é frequentemente mal compreendida, gerando expectativas excessivas quando utilizados como ferramentas de rastreamento populacional e decepção quando os resultados não correspondem às expectativas. A compreensão de suas reais indicações é obrigação ética do analista clínico.
O Antígeno Prostático Específico (PSA) é a glicoproteína mais estudada em oncologia masculina. É produzido pela glândula prostática e tem função fisiológica de liquefação do sêmen. O PSA Total eleva-se em câncer de próstata, mas também em hiperplasia prostática benigna, prostatite, ejaculação recente e procedimentos urológicos. A relação PSA Livre/PSA Total ajuda a discriminar malignidade: valores baixos dessa relação (abaixo de 15 a 20%) são mais sugestivos de câncer, enquanto valores elevados sugerem hiperplasia benigna. O PSA é validado para monitoramento pós-terapêutico, cirurgia, radioterapia ou hormonioterapia, em que qualquer elevação após tratamento potencialmente curativo indica recidiva bioquímica. Contudo, seu uso para rastreamento populacional permanece controverso, pois gera elevada taxa de falsos positivos e sobrediagnóstico.
O CEA (Antígeno Carcinoembrionário) é uma glicoproteína produzida durante o desenvolvimento embrionário, normalmente ausente ou em concentrações mínimas no adulto. Eleva-se em neoplasias colorretal, pancreática, gástrica, pulmonar e mamária, mas também em tabagismo, cirrose hepática e doenças inflamatórias intestinais. Sua principal utilidade é o monitoramento pós-ressecção do câncer colorretal: elevações sequenciais sugerem recorrência antes mesmo da detecção por imagem.
O CA 125 é uma mucina produzida pelo epitélio celômico e elevada em câncer de ovário epitelial, mas também em endometriose, miomas, gravidez, hepatite e insuficiência cardíaca. Sua baixa especificidade limita a utilidade diagnóstica, mas é amplamente utilizado no monitoramento de resposta à quimioterapia e na detecção precoce de recidiva em pacientes com câncer de ovário conhecido. O CA 19-9 é marcador de tumores gastrointestinais, especialmente câncer pancreático, com papel no estadiamento e monitoramento terapêutico. Importante: pacientes com antígeno Lewis negativo, aproximadamente 5 a 10% da população, não expressam CA 19-9, gerando falsos negativos.
A Alfa-fetoproteína (AFP) é produzida fisiologicamente pelo fígado fetal e decresce rapidamente após o nascimento. Sua elevação em adultos é marcador de carcinoma hepatocelular (em pacientes cirróticos ou com hepatite B crônica, a AFP é usada em programas de vigilância semestral com ultrassom) e de tumores germinativos testiculares (em combinação com hCG e LDH). A Gonadotrofina Coriônica Humana (hCG) é o hormônio da gravidez, mas sua fração beta é marcador sensível de coriocarcinoma, doença trofoblástica gestacional e tumores germinativos testiculares.
O ponto mais importante que o analista clínico deve internalizar e comunicar é a limitação fundamental dos marcadores tumorais para rastreamento em populações sem sintomas ou fatores de risco bem definidos. Com exceção do PSA (ainda controverso) e da AFP em pacientes com cirrose, nenhum marcador tumoral é recomendado para triagem geral. O motivo é técnico e epidemiológico: em populações de baixa prevalência, o valor preditivo positivo de qualquer marcador cai dramaticamente, gerando ondas de investigações desnecessárias, procedimentos invasivos, ansiedade e custos sem benefício comprovado em termos de mortalidade. O valor real dos marcadores tumorais está no diagnóstico diferencial quando já há suspeita clínica, no estadiamento inicial, na avaliação da resposta ao tratamento e na detecção precoce de recidiva.
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