Métodos de Detecção e Análise Molecular
A eletroforese em gel de
agarose é uma das técnicas mais utilizadas em biologia molecular para
separação, identificação e análise de fragmentos de DNA ou RNA com base em seu
tamanho. A separação ocorre pela migração das moléculas carregadas
negativamente (devido ao grupamento fosfato dos ácidos nucleicos) em direção ao
polo positivo quando submetidas a um campo elétrico, dentro de uma matriz de
gel de agarose com poros de tamanho controlável pela concentração de agarose
utilizada (tipicamente 0,8 a 3%). Fragmentos menores migram mais rapidamente do
que fragmentos maiores. O brometo de etídio (altamente mutagênico) foi
historicamente o corante mais utilizado, mas foi substituído por alternativas
mais seguras como o SYBR Safe, GelRed e GelGreen. A comparação com marcadores
moleculares (ladders) de tamanho conhecido permite estimar o tamanho dos
fragmentos. Na rotina diagnóstica, a eletroforese ainda é utilizada para
verificar a integridade do RNA extraído, confirmar produtos de PCR convencional
e analisar resultados de PCR-RFLP.
A hibridização molecular
baseia-se na capacidade de fitas de ácidos nucleicos com sequências
complementares de se emparelharem de forma específica, mesmo quando uma das
fitas é sintética (sonda). Nessa técnica, uma sonda marcada (com isótopo
radioativo, enzima ou fluoróforo) é incubada com o ácido nucleico-alvo em condições
controladas de temperatura e concentração salina (stringência), permitindo a
detecção específica de sequências de interesse. Entre as aplicações
diagnósticas da hibridização destacam-se: o Southern blot (para detecção de
sequências específicas em DNA genômico separado por eletroforese); o Northern
blot (para análise de mRNA); o FISH (Fluorescence In Situ Hybridization), que
detecta sequências específicas diretamente em cromossomos ou células, sendo
amplamente utilizado em oncogenética para detecção de translocações,
amplificações e deleções cromossômicas; e os ensaios de captura híbrida (Hybrid
Capture), utilizados para detecção qualitativa e semiquantitativa de HPV e
outros patógenos.
O sequenciamento de Sanger,
desenvolvido por Frederick Sanger em 1977 e aprimorado nos anos 1990 com a
fluorescência capilar automática, permanece como padrão ouro para confirmação
de variantes genéticas pontuais, tipagem de genes de resistência
antimicrobiana, identificação de espécies microbianas pelo gene 16S rRNA
(bacteriologia) e ITS (micologia), e análise de regiões hipervariáveis de genes
virais. O método baseia-se na incorporação de didesoxinucleotídeos (ddNTPs)
marcados com fluoróforos distintos durante a síntese do DNA, gerando fragmentos
de diferentes tamanhos que são separados por eletroforese capilar e detectados
por laser. O resultado é um eletroferograma com picos coloridos que representam
cada base da sequência. Na rotina laboratorial, o Sanger é utilizado para
sequenciar amplicons de 200 a 1000 pb com alta confiabilidade, sendo
especialmente indicado quando a variante alvo é conhecida e o número de
amostras a analisar é limitado.
O sequenciamento de nova
geração (Next-Generation Sequencing, NGS), também denominado sequenciamento de
alto desempenho ou sequenciamento massivamente paralelo, revolucionou a
genômica ao permitir a análise simultânea de milhões a bilhões de fragmentos de
DNA ou RNA em uma única corrida. As plataformas comerciais mais utilizadas na
atualidade incluem o Illumina (MiSeq, NextSeq, NovaSeq), o Ion Torrent (Thermo
Fisher), o PacBio SMRT e o Oxford Nanopore (para leituras longas). O fluxo de
trabalho NGS compreende quatro etapas principais: preparação da biblioteca
(fragmentação do DNA/RNA, ligação de adaptadores e, quando necessário, captura
de regiões de interesse); sequenciamento (leitura das sequências de bases);
análise bioinformática (alinhamento das leituras ao genoma de referência,
chamada de variantes, anotação funcional); e interpretação clínica. As
aplicações diagnósticas do NGS são vastas: diagnóstico de doenças raras, painel
de oncogenética hereditária, perfilamento tumoral, metagenômica clínica para identificação
de patógenos desconhecidos, e caracterização de resistomas microbianos. O
farmacêutico e o técnico devem compreender os princípios do NGS para garantir a
qualidade das etapas pré-analíticas, que são determinantes para o sucesso do
sequenciamento.
Os microarranjos genéticos (microarrays ou chips de DNA) consistem em suportes sólidos, lâminas de vidro ou chips de silício, nos quais milhares a milhões de sondas oligonucleotídicas são imobilizadas em posições conhecidas. A amostra biológica, marcada com fluoróforos, é hibridizada ao chip, e a intensidade de fluorescência em cada posição reflete a abundância relativa de cada sequência alvo. Os microarranjos têm sido utilizados para análise de expressão gênica em larga escala, genotipagem de SNPs, detecção de CNVs por array-CGH (Comparative Genomic Hybridization) em citogenômica clínica, tipagem de HPV e detecção de múltiplos patógenos simultaneamente. A validação de resultados em biologia molecular diagnóstica deve incluir o estabelecimento de parâmetros analíticos como sensibilidade analítica (limite de detecção), especificidade analítica (ausência de reações cruzadas com sequências não-alvo), precisão (intra e inter-ensaio), linearidade e robustez, em conformidade com os requisitos da ABNT NBR ISO 15189 e dos guias do CLSI (Clinical and Laboratory Standards Institute).
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