Neurobioquímica
Biomarcadores Liquóricos e Sanguíneos em Neurologia Clínica
O líquido cefalorraquidiano (LCR), também denominado líquor ou líquido cerebrospinal, é muito mais do que um simples amortecedor mecânico do sistema nervoso central. Trata-se de um fluido biológico dinâmico, produzido predominantemente pelos plexos corióideos dos ventrículos cerebrais à taxa de aproximadamente 500 mL por dia, com volume circulante total de 150 mL renovados cerca de 3 a 4 vezes ao dia, cuja composição bioquímica reflete diretamente o estado metabólico, inflamatório e degenerativo do parênquima cerebral e medular adjacente. Para o laboratório clínico, a análise do líquor representa uma das janelas mais privilegiadas de acesso ao microambiente do SNC, sendo insubstituível em diversas situações diagnósticas.
A análise do líquor normal revela um fluido cristalino, incolor, com pressão de abertura entre 70 e 180 mmH₂O, contagem celular inferior a 5 leucócitos/mm³ (predominantemente linfócitos), proteínas totais entre 15 e 45 mg/dL, glicose correspondendo a 60–80% da glicemia simultânea, e lactato inferior a 2,2 mmol/L. A alteração de qualquer um desses parâmetros fundamentais orienta imediatamente a investigação diagnóstica. O aumento da pressão de abertura pode indicar hipertensão intracraniana por diversas etiologias. A pleocitose, elevação da celularidade, e o diferencial celular (polimorfonuclear versus mononuclear) são os primeiros discriminadores entre processos infecciosos bacterianos e virais: a meningite bacteriana aguda tipicamente cursa com pleocitose neutrofílica intensa (centenas a milhares de células), proteínas marcadamente elevadas (frequentemente acima de 100 mg/dL), hipoglicorraquia (glicose liquórica abaixo de 40% da glicemia, em razão do consumo bacteriano e da disfunção dos transportadores GLUT1 na BHE inflamada) e lactato elevado, resultado da glicólise anaeróbica bacteriana e da disfunção mitocondrial neuronal. A meningite viral, em contraste, apresenta pleocitose predominantemente linfocítica, proteínas discretamente elevadas, glicose normal e lactato dentro dos limites de referência.
Na investigação de doenças desmielinizantes, particularmente a Esclerose Múltipla (EM), a pesquisa de bandas oligoclonais de IgG (BOC) pelo método de focalização isoelétrica seguida de imunodetecção em nitrocelulose é o exame liquórico de maior sensibilidade diagnóstica, presente em mais de 95% dos pacientes com EM definida. As BOC representam a produção intratecal de IgG por clones B específicos reativos a antígenos mielínicos, não detectáveis no soro do mesmo paciente, o padrão 2 de Reiber, com BOC presentes no líquor e ausentes no soro, é patognomônico de produção intratecal. O índice de IgG de Reiber-Felgenhauer compara a razão IgG/albumina no líquor e no soro, corrigindo para a permeabilidade da BHE, permitindo distinguir produção intratecal de IgG da simples passagem de imunoglobulinas séricas por uma barreira comprometida.
Na investigação de hemorragia subaracnoidea (HSA), a punção lombar após tomografia computadorizada negativa, realizada idealmente entre 6 e 12 horas após o início da cefaleia, é o padrão diagnóstico. A xantocromia do sobrenadante, resultante da degradação da hemoglobina em bilirrubina e oxiemoglobina pelos macrófagos liquóricos, é detectada por espectrofotometria em comprimentos de onda de 415 nm (oxiemoglobina) e 476 nm (bilirrubina), sendo superior à inspeção visual para detecção de casos tardios ou sangramentos de baixo volume. A presença de eritrócitos e xantocromia que persiste em tubos sequenciais de coleta distingue a hemorragia verdadeira da punção traumática, onde o número de hemácias diminui do primeiro para o último tubo.
Os biomarcadores sanguíneos neuroaxonais representam uma fronteira em expansão acelerada no diagnóstico laboratorial neurológico. A cadeia leve do neurofilamento sérico (NfL) é liberada pelo axônio lesado em múltiplas condições, ELA, EM, lesão axonal difusa, doenças neurodegenerativas, sendo dosada por imunoensaios ultrassensíveis de quimioluminescência (ECLIA) ou por tecnologia de contagem de moléculas individuais (Simoa). A proteína ácida fibrilar glial sérica (GFAP) reflete o dano astrocítico e encontra aplicação no diagnóstico diferencial de lesões cerebrais agudas. A proteína 14-3-3 liquórica, a tau total e a tau fosforilada (p-tau181) constituem o conjunto de biomarcadores do dano neuronal crônico nas doenças neurodegenerativas, tema aprofundado no capítulo seguinte. A interpretação correta desses biomarcadores exige conhecimento das interferências analíticas, dos valores de referência por faixa etária e das condições pré-analíticas, como o tempo entre coleta e processamento do líquor, que deve ser inferior a duas horas para preservar a integridade das proteínas dosadas.
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