Proteínas Plasmáticas Específicas e Marcadores Inflamatórios

Proteínas Plasmáticas Específicas
e Marcadores Inflamatórios


Eletroforese, PCR, procalcitonina e diagnóstico de mieloma múltiplo

As proteínas plasmáticas formam um universo bioquímico complexo e informativo, cujas alterações refletem desde estados inflamatórios agudos até doenças clonais malignas. A análise de proteínas, em sua dimensão quantitativa e qualitativa, representa uma das ferramentas diagnósticas mais versáteis da bioquímica clínica.

A eletroforese de proteínas séricas separa as proteínas plasmáticas em frações baseadas em sua mobilidade elétrica a pH alcalino. No traçado eletroforético normal, observam-se cinco zonas: albumina (fração mais abundante e de maior mobilidade), alfa-1, alfa-2, beta e gama-globulinas. A albumina, produzida exclusivamente pelo fígado, representa 50 a 65% das proteínas totais e é responsável pela pressão oncótica e pelo transporte de diversas substâncias. Sua queda (hipoalbuminemia) ocorre em desnutrição, síndrome nefrótica, hepatopatias crônicas e estados inflamatórios persistentes, pois é uma proteína de fase aguda negativa.

Nas proteínas de fase aguda positiva, que se elevam em resposta à inflamação por ação de citocinas como IL-6, IL-1 e TNF-α, destacam-se a alfa-1-antitripsina, haptoglobina, fibrinogênio e a Proteína C Reativa (PCR). Nos estados inflamatórios agudos, as frações alfa-1 e alfa-2 se elevam, enquanto a albumina cai, padrão denominado resposta de fase aguda. Já nas gammanopatias policlonais, observa-se alargamento difuso da fração gama, típico de processos infecciosos crônicos, doenças autoimunes e cirrose hepática.

O achado mais relevante e de maior impacto diagnóstico na eletroforese é o pico monoclonal (paraproteína ou componente M): uma banda estreita e bem delimitada na região beta ou gama, indicativa de expansão clonal de uma linhagem de plasmócitos ou linfócitos B que produzem imunoglobulinas idênticas. A presença de pico monoclonal exige investigação para mieloma múltiplo, macroglobulinemia de Waldenström ou gamopatia monoclonal de significado indeterminado (MGUS). A investigação laboratorial inclui dosagem de imunoglobulinas, imunoeletroforese ou imunofixação sérica e urinária para identificar o tipo e a cadeia leve da paraproteína.

A Proteína C Reativa (PCR) é sintetizada pelo fígado e é o marcador de inflamação mais utilizado na prática clínica. Sua concentração sérica eleva-se em até 1.000 vezes em 6 a 12 horas após o estímulo inflamatório agudo, com pico em 48 horas. A PCR ultrassensível (PCR-us), que detecta concentrações baixas (abaixo de 1 mg/L), tem valor em avaliação de risco cardiovascular e monitoramento de inflamação crônica de baixo grau. A Velocidade de Hemossedimentação (VHS) é um marcador inespecífico e mais lento, influenciado por proteínas de fase aguda e pela concentração de fibrinogênio; útil no monitoramento de arterite de células gigantes e polimialgia reumática.

A Procalcitonina (PCT) é o pró-hormônio da calcitonina, normalmente indetectável no sangue de indivíduos saudáveis. Em infecções bacterianas sistêmicas, especialmente sepse, a PCT eleva-se dramaticamente em poucas horas por estimulação de citocinas bacterianas e endotoxinas, permanecendo baixa em infecções virais e processos inflamatórios não infecciosos. Essa especificidade relativa para infecção bacteriana invasiva torna a PCT o biomarcador de escolha para guiar decisões de início e descalonamento de antibioticoterapia em pacientes críticos, reduzindo o uso inadequado de antibióticos e, consequentemente, a resistência bacteriana. Valores acima de 2 ng/mL sugerem forte probabilidade de sepse bacteriana; acima de 10 ng/mL, choque séptico.

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