Transporte, Processamento e
Armazenamento de Amostras
A variedade de amostras
biológicas utilizadas em biologia molecular diagnóstica é ampla e cresce
continuamente com o desenvolvimento de novas aplicações. O sangue total
coletado em tubos com EDTA é a amostra mais versátil, sendo utilizada para
extração de DNA leucocitário em diagnósticos de doenças hereditárias,
hematológicas e infecciosas sistêmicas. O plasma e o soro são empregados na
detecção e quantificação de ácidos nucleicos circulantes de vírus (HIV, HCV,
HBV, CMV, EBV) e, mais recentemente, na biópsia líquida para detecção de DNA
tumoral circulante (ctDNA). Secreções do trato respiratório, swab
nasofaríngeo, lavado broncoalveolar, escarro, são amostras primárias para o
diagnóstico de infecções respiratórias por vírus e bactérias atípicas. Urina,
líquor, líquido sinovial, fezes, tecidos frescos ou fixados em parafina (FFPE)
e swabs de lesões cutâneas completam o espectro amostral. Amostras em
papel-filtro (DBS, Dried Blood Spot), amplamente usadas no Programa Nacional
de Triagem Neonatal, representam uma alternativa de baixo custo e fácil
transporte para populações remotas.
A fase pré-analítica
responde por até 70% dos erros laboratoriais, segundo a literatura, tornando os
critérios de aceitação e rejeição de amostras instrumentos indispensáveis de
gestão da qualidade. Para as análises moleculares, os critérios são ainda mais
exigentes do que para os métodos convencionais. São motivos de rejeição: tubos
incorretos (uso de heparina, que inibe a PCR, ao invés de EDTA); volume
insuficiente de amostra; identificação inadequada ou ausente; hemólise intensa
(libera hemoglobina e seus derivados, potentes inibidores da Taq polimerase);
lipemia acentuada; amostras com tempo de transporte excessivo sem refrigeração;
amostras congeladas e descongeladas múltiplas vezes para analitos instáveis
como RNA viral; e amostras coletadas após início da terapia antiviral quando a
indicação é de diagnóstico inicial. Toda rejeição deve ser documentada no
sistema informatizado do laboratório e comunicada ao solicitante com orientação
para nova coleta.
O DNA genômico é
relativamente estável em temperatura ambiente por curtos períodos, mas sua
integridade é comprometida por ciclos de congelamento e descongelamento, pH
extremos e ação de DNases. Para análises de rotina, amostras de sangue total em
EDTA podem ser mantidas a 4°C por até 72 horas antes da extração sem perda
significativa de qualidade. O RNA, por sua vez, é altamente instável devido à
presença ubíqua de ribonucleases (RNases) no ambiente e nas próprias amostras.
Amostras destinadas a análises de RNA devem ser processadas imediatamente ou
armazenadas em reagentes estabilizadores como o RNA later (Qiagen) ou
equivalentes. Tecidos devem ser rapidamente congelados a -80°C ou fixados em
solução tamponada de formalina para preservação. DNA extraído pode ser armazenado
em tampão TE (Tris-EDTA) a -20°C por anos; RNA extraído deve ser mantido a
-80°C para preservar sua integridade, avaliada pelo RIN (RNA Integrity Number).
O transporte de amostras
biológicas deve obedecer às normas nacionais (Resolução Anvisa RDC nº 420/2020
e RDC nº 302/2005) e internacionais (IATA Packing Instruction 650 para
substâncias biológicas Categoria B). Amostras para análises moleculares devem
ser transportadas refrigeradas (entre 2°C e 8°C) em recipientes apropriados,
com absorvente interno e embalagem primária hermética. O tempo entre coleta e
processamento deve ser minimizado, especialmente para amostras de RNA. O
registro de temperatura durante o transporte, por meio de dataloggers, é uma
boa prática crescentemente adotada pelos laboratórios acreditados. A
rastreabilidade da amostra, identificada de forma inequívoca desde o momento
da coleta até o arquivo do laudo, é requisito normativo da ABNT NBR ISO 15189
e é operacionalizada por etiquetas com código de barras ou QR code integrados
ao sistema informatizado de gestão laboratorial (LIS).
Na biologia molecular, a
fase pré-analítica apresenta particularidades que exigem atenção redobrada. A
presença de inibidores da PCR nas amostras biológicas, heparina, hemoglobina,
mioglobina, bilirrubina, polissacarídeos, sais biliares, ácidos húmicos em
amostras ambientais, pode resultar em falsos negativos com consequências
clínicas graves, especialmente no diagnóstico de sepse ou em monitoramentos de
carga viral. A diluição da amostra, a inclusão de controles internos de
extração e amplificação e o uso de métodos de extração que removem
eficientemente os inibidores são estratégias fundamentais para mitigar esse
risco. A documentação rigorosa de todos os passos pré-analíticos, identificação do coletador, horário da coleta, condições de transporte,
inspeção visual da amostra na recepção e registro de desvios, constitui a base
da rastreabilidade e da garantia da qualidade no laboratório molecular moderno.
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