Ácido Úrico
O ácido úrico é o produto final do catabolismo das purinas, bases nitrogenadas que compõem os ácidos nucleicos DNA e RNA, sendo originado tanto do metabolismo endógeno celular quanto da dieta. Em condições fisiológicas, circula no plasma na forma de urato monossódico e é primariamente excretado pelos rins, em um processo complexo que envolve filtração glomerular, reabsorção tubular quase completa, secreção ativa tubular e uma reabsorção pós-secretória final, resultando em uma fração de excreção de apenas 8-10% da carga filtrada. A regulação da uricemia, portanto, é fruto de um equilíbrio delicado entre a produção hepática e a eficiência do manejo tubular renal, e qualquer desequilíbrio nessa balança pode culminar em hiperuricemia, definida como níveis séricos acima de 6,8 mg/dL, o ponto de saturação do urato no plasma.
A principal indicação clínica da dosagem do ácido úrico no contexto do sistema urinário é a investigação da litíase renal por cálculo de ácido úrico, que representa uma fração significativa de todas as nefrolitíases. Nessa condição, uma urina persistentemente ácida (pH urinário baixo) e a hiperuricosúria (excreção elevada de ácido úrico na urina) são os fatores de risco centrais, sendo a determinação do pH urinário no EAS um dado fundamental para a suspeita diagnóstica. A formação de cálculos de ácido úrico é frequentemente associada a estados de resistência à insulina, como na síndrome metabólica e no diabetes, condições em que há um defeito na amoniogênese tubular renal, resultando em uma urina cronicamente ácida que cristaliza o urato.
Além da litíase, a hiperuricemia mantém uma relação bidirecional e controversa com a doença renal crônica. Níveis elevados de ácido úrico podem se depositar no interstício renal, causando nefropatia crônica por urato, um diagnóstico que exige hiperuricemia marcada e prolongada. Em um cenário mais amplo e clinicamente relevante, a hiperuricemia assintomática é hoje considerada um fator de risco cardiovascular independente e um possível mediador de dano renal progressivo, seja por induzir hipertensão glomerular e arteriolosclerose aferente, seja por ativar diretamente vias inflamatórias. A gota, doença articular inflamatória causada pela deposição de cristais de monourato de sódio nas articulações, é a manifestação clínica mais conhecida da hiperuricemia crônica. O manejo do ácido úrico elevado, portanto, estende-se da prevenção de cálculos e crises de artrite gotosa à proteção da função renal e cardiovascular a longo prazo.
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