Análise do Líquido Quiloso
(Quilotórax / Ascite Quilosa)
A análise laboratorial do líquido quiloso é o exame diagnóstico definitivo para a confirmação de quilotórax e ascite quilosa, condições patológicas que resultam do acúmulo de linfa, o fluido transportado pelos vasos linfáticos, nas cavidades pleural ou peritoneal, respectivamente, devido à ruptura, obstrução ou disfunção dos grandes vasos linfáticos, notadamente o ducto torácico. A linfa é um líquido de composição única, rico em lipoproteínas de baixa densidade, os quilomícrons, que são sintetizados pelos enterócitos e transportam os triglicerídeos da dieta, absorvidos no intestino delgado, para a circulação sistêmica, desembocando no ducto torácico e, finalmente, na veia subclávia esquerda. Consequentemente, a linfa tem uma concentração de triglicerídeos muito superior à do plasma, especialmente após uma refeição rica em gorduras, e uma concentração de proteínas moderada, sendo rica em linfócitos, predominantemente do tipo T. A análise do líquido coletado por toracocentese ou paracentese que revela este perfil bioquímico e citológico característico é o que confirma a sua origem linfática.
O critério laboratorial padrão-ouro para o diagnóstico de quilotórax ou ascite quilosa é a dosagem de triglicerídeos no líquido cavitário. Um valor de triglicerídeos superior a 110 mg/dL é diagnóstico de derrame quiloso, com sensibilidade e especificidade próximas de 100%. Valores abaixo de 50 mg/dL virtualmente excluem o diagnóstico. O colesterol no líquido quiloso é tipicamente baixo, inferior a 200 mg/dL, e a relação triglicerídeos/colesterol é superior a 1, o que ajuda a diferenciar o quilotórax do pseudoquilotórax, um derrame crônico de longa data, frequentemente associado a tuberculose ou artrite reumatoide, onde o colesterol está muito elevado e os triglicerídeos são baixos. A análise microscópica do líquido quiloso revela a presença de linfócitos como célula predominante na contagem diferencial, tipicamente superior a 80%, e a pesquisa de quilomícrons por eletroforese de lipoproteínas pode confirmar a natureza quilosa. O aspecto macroscópico leitoso do líquido é um forte indicador, mas a sua ausência não exclui o diagnóstico, especialmente em pacientes em jejum.
As causas de quilotórax e ascite quilosa que se relacionam diretamente com o sistema linfático são diversas e frequentemente neoplásicas. Linfomas, particularmente os linfomas Não-Hodgkin, são a causa maligna mais comum, pois a massa tumoral pode comprimir, infiltrar ou romper os vasos linfáticos. Cânceres metastáticos, como o de pulmão, mama e estômago, também podem causar derrame quiloso por obstrução linfática. Causas não neoplásicas incluem trauma cirúrgico, especialmente após cirurgias torácicas ou esofágicas, e condições congênitas como a linfangioleiomiomatose. Em suma, a análise do líquido quiloso, com a demonstração de triglicerídeos elevados e predomínio linfocitário, é o exame que fecha o diagnóstico de um derrame de origem linfática e desencadeia a investigação etiológica, que frequentemente revela uma neoplasia do sistema linfático como causa subjacente.
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