Bioquímica do LCR (Glicose e Proteínas)

 Bioquímica do LCR
(Glicose e Proteínas)


A análise bioquímica do LCR, centrada na dosagem de glicose e proteínas, é o complemento essencial e indissociável da citologia, fornecendo parâmetros que refinam o diagnóstico sindrômico e ajudam a diferenciar as etiologias das meningites e de outras patologias do SNC. A barreira hematoencefálica, formada pelas junções oclusivas do endotélio capilar cerebral e pelos pés dos astrócitos, regula rigorosamente a passagem de macromoléculas e metabólitos do plasma para o LCR. A glicose, a principal fonte de energia para os neurônios, é transportada através da barreira por transportadores GLUT1, e sua concentração no LCR normal é cerca de 60 a 80% da glicemia. As proteínas do LCR, por sua vez, são derivadas em sua maior parte do plasma por filtração seletiva, com uma pequena fração sintetizada intratecalmente, e sua concentração normal é cerca de 200 vezes menor que a plasmática. Alterações nestes parâmetros refletem disfunção da barreira, consumo metabólico intratecal aumentado ou síntese local de imunoglobulinas.

A glicorraquia, ou concentração de glicose no LCR, é um parâmetro de imenso valor diagnóstico. A hipoglicorraquia, definida como uma glicose no LCR abaixo de 40 mg/dL ou uma relação glicose LCR/sangue inferior a 0,4, é um achado altamente específico e que restringe o diagnóstico diferencial. A hipoglicorraquia é a marca laboratorial das meningites bacterianas agudas, da meningite tuberculosa e das meningites fúngicas, como a criptococose. Nestas condições, o consumo metabólico de glicose por bactérias ou fungos, juntamente com a disfunção do transporte através da barreira inflamada, resulta em níveis dramaticamente baixos de glicose no LCR. A hipoglicorraquia também pode ser observada na meningite carcinomatosa e na sarcoidose meníngea. Em contraste, as meningites virais cursam classicamente com glicorraquia normal, um dos critérios mais úteis para diferenciá-las das bacterianas.

A proteinorraquia, ou concentração de proteínas totais no LCR, é um marcador de dano à barreira hematoencefálica e de inflamação intratecal. A hiperproteinorraquia é observada em virtualmente todas as patologias meníngeas, mas a sua magnitude e o seu perfil eletroforético fornecem pistas etiológicas. Valores muito elevados, acima de 200 mg/dL, são típicos de meningite bacteriana aguda e da síndrome de Guillain-Barré. Na esclerose múltipla, a proteinorraquia total pode ser normal, mas a eletroforese revela a presença de bandas oligoclonais, indicando síntese intratecal de IgG. A interpretação da proteinorraquia deve sempre corrigir o valor para a presença de hemácias, subtraindo-se 1 mg de proteína para cada 1000 hemácias. Em suma, a bioquímica do LCR, com o binômio glicose-proteínas, é o parâmetro que completa a análise celular, permitindo a classificação do LCR e a diferenciação sindrômica que guia a investigação etiológica.

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