Citologia do LCR

 Citologia do LCR


A citologia do líquido cefalorraquidiano é o exame que quantifica e caracteriza os elementos celulares presentes no LCR, constituindo a primeira e mais imediata etapa da análise laboratorial do sistema nervoso central e fornecendo informações diagnósticas cruciais que, em minutos, permitem a classificação sindrômica das doenças meníngeas e encefálicas e orientam a terapia empírica inicial. O LCR normal é um fluido virtualmente acelular, contendo até 5 leucócitos por milímetro cúbico em adultos, com predomínio absoluto de linfócitos e monócitos, e absolutamente desprovido de hemácias. A presença de um número aumentado de células, condição denominada pleocitose, é o marcador de um processo patológico que rompeu a barreira hematoencefálica ou que está ativo dentro do espaço subaracnóideo. A contagem total de leucócitos e a contagem diferencial, que determina a proporção de neutrófilos, linfócitos e outras células, são realizadas em câmara de Neubauer e em esfregaços citológicos corados, respectivamente, e devem ser executadas imediatamente após a coleta, pois as células degeneram rapidamente in vitro.

A principal aplicação clínica da citologia do LCR é o diagnóstico diferencial das meningites e encefalites. O perfil citológico é o que define a natureza do processo inflamatório e direciona a investigação etiológica subsequente. Uma pleocitose com predomínio maciço de neutrófilos, tipicamente acima de 1000 células/mm³, sendo 80-90% de neutrófilos, define o padrão de meningite bacteriana aguda, ou piogênica. Esta é uma emergência médica, e a visualização de diplococos Gram-positivos ou bacilos Gram-negativos na bacterioscopia, juntamente com a citologia, é o que aciona o início imediato da antibioticoterapia empírica. Em contraste, a meningite viral ou linfocítica cursa com uma pleocitose moderada, geralmente entre 10 e 500 células/mm³, com predomínio de linfócitos, e a presença de linfócitos ativados e plasmócitos é um achado sugestivo de etiologia viral. A meningite tuberculosa e as meningites fúngicas apresentam um perfil semelhante, com pleocitose linfocitária, mas podem exibir uma elevação proteica mais acentuada e hipoglicorraquia.

A citologia do LCR é também um exame de alta sensibilidade para a detecção de hemorragia subaracnóidea. A presença de hemácias em grande número, com contagem que não se altera significativamente entre o primeiro e o último tubo coletado, e a xantocromia do sobrenadante após centrifugação, que confirma a lise das hemácias in vivo, são os critérios laboratoriais de hemorragia subaracnóidea verdadeira. A contagem de hemácias no LCR também é fundamental para a interpretação da proteinorraquia, pois a presença de sangue eleva a concentração de proteínas de forma artefatual. Além disso, a citologia pode detectar células neoplásicas em casos de meningite carcinomatosa ou linfomatosa, um achado que requer a análise por um citopatologista experiente. Em suma, a citologia do LCR é o exame que fornece o primeiro e mais impactante dado sobre o que está acontecendo no SNC, transformando a punção lombar em um procedimento diagnóstico de altíssimo rendimento.

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