Diagnóstico Clínico Laboratorial
da Hipertensão Arterial
A hipertensão arterial sistêmica é, por definição, um diagnóstico essencialmente clínico, estabelecido pela aferição repetida e padronizada da pressão arterial. Ainda assim, como profissional de análises clínicas, exerço papel indispensável no processo diagnóstico e na estratificação de risco desses pacientes, pois é o laboratório que investiga as causas secundárias de hipertensão, avalia o comprometimento de órgãos-alvo e orienta a escolha terapêutica inicial.
Diante de um novo diagnóstico, o painel laboratorial básico inclui função renal, com cálculo da taxa de filtração glomerular estimada, eletrólitos séricos, glicemia de jejum, perfil lipídico completo e urina tipo I associada à pesquisa de microalbuminúria. Esses exames permitem identificar lesão renal preexistente, alterações metabólicas associadas à síndrome metabólica e sinais precoces de nefropatia hipertensiva, além de fornecer a linha de base para o acompanhamento durante o uso de anti-hipertensivos.
Merece destaque a investigação de hipertensão secundária, indicada em pacientes jovens, com hipertensão grave ou refratária, ou com achados sugestivos, como hipocalemia espontânea. Nesses casos, participo da dosagem de aldosterona e renina plasmática, para investigação de hiperaldosteronismo primário, além de TSH e T4 livre, já que disfunções tireoidianas podem cursar com elevação pressórica. Em suspeita de feocromocitoma, oriento a coleta de metanefrinas plasmáticas ou urinárias, exame que exige cuidados pré-analíticos rigorosos.
O potássio sérico merece atenção redobrada: hemólise na coleta é causa frequente de pseudo-hipercalemia, gerando investigações desnecessárias caso não seja identificada. Da mesma forma, a padronização da coleta de urina para microalbuminúria é determinante para a confiabilidade do resultado, dado que exercício físico, febre e infecção urinária concomitante podem elevar falsamente a excreção de albumina.
O acompanhamento laboratorial periódico também é indispensável após o início da terapia anti-hipertensiva, especialmente com o uso de diuréticos, inibidores da enzima conversora de angiotensina e antagonistas de receptores de mineralocorticoide, classes farmacológicas capazes de induzir distúrbios eletrolíticos e alterações da função renal que exigem monitorização em intervalos regulares nas primeiras semanas de tratamento. Além disso, sempre reforço a importância de solicitar o perfil lipídico completo, colesterol total, frações HDL e LDL e triglicerídeos, no mesmo momento do diagnóstico de hipertensão, dado o forte entrelaçamento fisiopatológico entre hipertensão arterial, dislipidemia e risco cardiovascular global, informação essencial para o cálculo de escores de risco utilizados na definição da intensidade terapêutica a ser adotada pela equipe médica.
Assim, embora não seja o laboratório quem estabelece o diagnóstico primário de hipertensão, é a análise criteriosa dos exames complementares que permite diferenciar formas primárias de secundárias, identificar lesões de órgão-alvo em estágio inicial e personalizar a terapêutica, reduzindo o risco cardiovascular a longo prazo desses pacientes recém-diagnosticados.
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