Diagnóstico Clínico Laboratorial da Diarreia e Gastroenterite Infecciosa

 DIARREIA E GASTROENTERITE INFECCIOSA


A diarreia aguda de etiologia infecciosa figura entre os quadros mais frequentes na rotina laboratorial, sobretudo em crianças e em regiões com saneamento básico deficitário. Como profissional de análises clínicas, meu primeiro papel é auxiliar na diferenciação entre etiologia viral, bacteriana e parasitária, definição que orienta diretamente a conduta terapêutica, evitando o uso desnecessário de antimicrobianos em quadros autolimitados de origem viral.

O exame parasitológico de fezes, realizado em três amostras coletadas em dias alternados, permanece fundamental na investigação de protozoários como Giardia lamblia e Entamoeba histolytica, e de helmintos, cuja eliminação intermitente exige múltiplas coletas para adequada sensibilidade. A pesquisa de leucócitos e sangue oculto nas fezes auxilia na triagem inicial, orientando se o quadro tem caráter inflamatório-invasivo ou não inflamatório.

A coprocultura, com antibiograma quando indicado, é solicitada em diarreia disenteriforme, persistente, com sinais sistêmicos, ou em surtos de interesse epidemiológico. Em lactentes, a pesquisa de antígeno para rotavírus e adenovírus entérico é rotina frequente, dado que esses vírus respondem pela maior parte dos casos nessa faixa etária. Quando disponíveis, os painéis moleculares multiplex representam avanço significativo, identificando múltiplos agentes em uma única amostra.

Nos quadros mais graves, complemento a investigação com hemograma completo, eletrólitos séricos e função renal, fundamentais para avaliar o grau de desidratação e orientar a reposição hidroeletrolítica, especialmente em crianças e idosos.

Um cenário que exige atenção crescente na minha rotina é a diarreia associada ao uso de antibióticos, sobretudo em pacientes hospitalizados ou com histórico recente de internação, na qual a investigação de Clostridioides difficile, por meio da pesquisa de toxinas A e B ou de métodos moleculares específicos, torna-se mandatória, dado o potencial de gravidade dessa infecção e a necessidade de isolamento de contato para evitar disseminação hospitalar. Do ponto de vista pré-analítico, oriento sobre a coleta em recipiente adequado, sem contaminação urinária, e o transporte rápido ao laboratório, já que a demora pode comprometer a viabilidade de patógenos e a integridade de elementos parasitários.

Nos quadros de diarreia persistente, com duração superior a duas semanas, amplio a investigação para incluir a pesquisa específica de agentes oportunistas, como Cryptosporidium e Isospora, particularmente relevantes em pacientes imunossuprimidos, nos quais a diarreia crônica pode representar manifestação de infecção sistêmica subjacente ainda não diagnosticada, reforçando a importância da correlação clínico-laboratorial cuidadosa nesses casos mais complexos.

Dessa forma, a atuação criteriosa do profissional de análises clínicas é decisiva não apenas para o diagnóstico etiológico individual, mas também para a vigilância epidemiológica de surtos de doenças diarreicas agudas, contribuindo para a resposta rápida da saúde 



Comentários