A tuberculose permanece como um dos mais severos e persistentes desafios de saúde pública no Brasil, país que diagnostica anualmente uma expressiva carga de 70 mil a 80 mil novos casos. Sob a perspectiva do profissional de análises clínicas, essa estatística impõe uma rotina de vigilância extrema na bancada laboratorial, visto que o laboratório é o verdadeiro motor para a quebra da cadeia de transmissão na comunidade. Causada pelo complexo Mycobacterium tuberculosis, a patologia afeta primordialmente os pulmões em sua forma pulmonar bacilífera, embora possa se manifestar em sítios extrapulmonares. O analista clínico atua na linha de frente epidemiológica, transformando amostras de escarro e outros fluidos biológicos em diagnósticos rápidos e precisos, essenciais para iniciar o isolamento celular e o manejo terapêutico adequado antes do agravamento do quadro do paciente.
Para se chegar ao diagnóstico clínico-laboratorial definitivo, o fluxo analítico inicia-se com a rigorosa avaliação da fase pré-analítica, garantindo que a amostra de escarro obtida seja verdadeiramente proveniente da árvore brônquica e não apenas saliva. Na rotina clássica da microbiologia, a baciloscopia direta por meio da coloração de Ziehl-Neelsen é o teste de triagem mais ágil. Ao microscópio, o analista busca por bacilos álcool-ácido resistentes (BAAR), identificados como bastonetes finos e avermelhados contra um fundo azul de azul de metileno. Embora rápida e de baixo custo, a baciloscopia possui sensibilidade limitada em amostras paucibacilares. Por esse motivo, a biologia molecular revolucionou a rotina laboratorial com a implementação do Teste Rápido Molecular para Tuberculose (TRM-TB), baseado na técnica de PCR em tempo real. O TRM-TB permite detectar o DNA do complexo M. tuberculosis em poucas horas e, simultaneamente, realiza a triagem genética de resistência à rifampicina, oferecendo um ganho clínico imensurável. Para a confirmação definitiva e nos casos de suspeita de resistência medicamentosa, o analista realiza a cultura microbiológica em meios sólidos (como Löwenstein-Jensen) ou sistemas automatizados líquidos (MGIT). A cultura é o padrão-ouro absoluto, permitindo o posterior Teste de Sensibilidade aos Antimicrobianos (TSA).
Uma vez firmado o diagnóstico pelo laboratório através da identificação do bacilo ou de seu material genético, o direcionamento para o tratamento deve ser imediato e centralizado no Sistema Único de Saúde (SUS). O esquema terapêutico padrão para casos novos de tuberculose sensível baseia-se na Poliquimioterapia, administrada em um regime de dose fixa combinada composto por quatro fármacos: Rifampicina, Isoniazida, Pirazinamida e Etambutol (esquema RIPE) durante a fase inicial de ataque (2 meses), seguido por Rifampicina e Isoniazida na fase de manutenção (4 meses), totalizando 6 meses de tratamento. O papel do profissional de análises clínicas permanece indispensável durante todo esse ciclo; mensalmente, o analista executa baciloscopias de controle para monitorar a negativação da carga bacilar e avaliar a eficácia do tratamento. Adicionalmente, devido ao potencial hepatotóxico dos tuberculostáticos, o laboratório monitora regularmente a função hepática do paciente por meio das dosagens séricas de transaminases (TGO e TGP). Assim, o rigor técnico do analista clínico, desde a coloração em lâmina até os ensaios moleculares avançados, sustenta a cura do indivíduo e as estratégias de erradicação da doença no país.
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