Diagnóstico Clínico Laboratorial da DENGUE

 DENGUE



A dengue impôs, nos últimos anos, um dos maiores desafios ao sistema de saúde brasileiro, com cenários epidêmicos que ultrapassaram a marca de um milhão de casos novos em poucos meses. Como profissional de análises clínicas, atuo na linha de frente da confirmação diagnóstica dessa arbovirose, cujo quadro clínico, febre alta, cefaleia, dor retro-orbitária, mialgia e exantema, é frequentemente inespecífico e se sobrepõe a outras arboviroses circulantes, como zika e chikungunya, tornando o diagnóstico laboratorial indispensável.

A escolha do exame depende do momento da doença em relação ao início dos sintomas. Nos primeiros cinco dias, priorizo a pesquisa do antígeno NS1, com alta sensibilidade nessa fase inicial, e, quando disponível, a RT-PCR, padrão-ouro para detecção do RNA viral e determinação do sorotipo circulante, informação relevante para a vigilância epidemiológica. Após o quinto dia, a sensibilidade do NS1 diminui, e a sorologia torna-se exame de escolha: IgM indica infecção recente, enquanto IgG em títulos elevados ou em ascensão sugere infecção pregressa ou resposta secundária.

Paralelamente à confirmação etiológica, o hemograma completo é essencial no acompanhamento evolutivo. A plaquetopenia progressiva, associada à leucopenia e ao aumento do hematócrito, marcador de hemoconcentração e extravasamento plasmático, constitui sinal de alerta para evolução à forma grave. Complemento essa avaliação com provas de função hepática, albumina sérica e, em casos com sinais de alarme, coagulograma completo.

Um cuidado que sempre reforço é a correlação entre a data de início dos sintomas e o exame solicitado: a sorologia IgM nos dois primeiros dias pode gerar falso-negativo, exigindo repetição ou associação com NS1/RT-PCR. Da mesma forma, oriento sobre o intervalo mínimo de dez a quatorze dias para a segunda coleta pareada de sorologia, quando indicada.

Diante da circulação simultânea de zika e chikungunya em diversas regiões do país, um desafio adicional da minha rotina é a diferenciação laboratorial entre essas arboviroses, uma vez que os quadros clínicos se sobrepõem consideravelmente. Sempre que possível, oriento a solicitação de painéis moleculares multiplex, capazes de detectar simultaneamente os três vírus em uma única amostra, otimizando o diagnóstico diferencial. Vale destacar, ainda, que em áreas de alta endemicidade, infecções secundárias por sorotipo distinto de dengue podem cursar com resposta imune anamnéstica intensa, gerando IgG elevada precocemente e, por vezes, resultado falso-negativo de NS1, cenário que exige interpretação cautelosa e correlação clínico-epidemiológica cuidadosa por parte do laboratório.

Dessa forma, o laboratório não apenas confirma o diagnóstico etiológico da dengue, mas também monitora, por meio de parâmetros hematológicos e bioquímicos seriados, a evolução clínica do paciente, subsidiando decisões sobre hidratação, internação e classificação de risco, contribuindo diretamente para a redução da mortalidade associada às formas graves da doença.

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