As
varizes dos membros inferiores constituem uma das principais causas de
procedimentos cirúrgicos eletivos no Sistema Único de Saúde, decorrentes da
insuficiência valvular do sistema venoso superficial. Diferentemente da maioria
das condições abordadas neste livro, o diagnóstico da doença venosa crônica é
eminentemente clínico e de imagem, estabelecido pelo exame físico e,
principalmente, pelo eco-Doppler venoso. Ainda assim, como profissional de
análises clínicas, minha atuação é indispensável em diferentes momentos do
cuidado a esses pacientes.
Antes
de qualquer procedimento cirúrgico para tratamento de varizes, realizo a
avaliação laboratorial pré-operatória de rotina, que inclui hemograma completo,
coagulograma, glicemia, função renal e, quando indicado, avaliação cardiológica
complementar. Essa investigação visa identificar distúrbios de coagulação não
diagnosticados, que poderiam aumentar o risco de sangramento intraoperatório ou
de eventos trombóticos no pós-operatório.
Um
ponto de particular relevância é a diferenciação entre varizes primárias e
quadros de insuficiência venosa secundária a trombose venosa profunda prévia, a
síndrome pós-trombótica. Nessas situações, participo da investigação de
trombofilias hereditárias e adquiridas, especialmente em pacientes jovens com
histórico de trombose sem fator de risco evidente, ou com recorrência de
eventos trombóticos.
Nos
casos em que há suspeita clínica de trombose venosa profunda concomitante, o
D-dímero assume papel relevante como exame de triagem: seu valor preditivo
negativo elevado permite, em conjunto com escores de probabilidade clínica,
afastar com segurança a hipótese de trombose aguda em pacientes de baixo risco,
embora sua elevação, por si só, não seja específica e sempre exija confirmação
por eco-Doppler.
Vale
ressaltar que a interpretação do D-dímero deve sempre considerar o contexto
clínico do paciente, uma vez que se trata de exame com boa sensibilidade, porém
baixa especificidade: gestação, neoplasias, processos inflamatórios, cirurgias
recentes e a própria idade avançada podem elevar seus valores independentemente
da presença de trombose, o que exige o uso de pontos de corte ajustados por
idade em pacientes idosos, prática cada vez mais recomendada na literatura para
reduzir a taxa de exames de imagem desnecessários. Nos pacientes com varizes de
longa data e sinais de insuficiência venosa crônica avançada, como
lipodermatoesclerose ou úlceras de estase, também colaboro na investigação de
eventuais processos infecciosos secundários, por meio de cultura de secreção da
lesão, quando há suspeita clínica de infecção bacteriana associada.
Dessa
forma, ainda que o laboratório não seja protagonista no diagnóstico primário
das varizes, sua atuação é fundamental na segurança cirúrgica, na investigação
de causas secundárias e na diferenciação com quadros tromboembólicos,
contribuindo para um cuidado mais completo e seguro a esses pacientes.
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