Diagnóstico Clínico Laboratorial das
Infecções do Trato Urinário
As
infecções do trato urinário estão entre os motivos mais frequentes de
solicitação de exames laboratoriais na rotina ambulatorial, com marcante
predomínio no sexo feminino, em razão de fatores anatômicos como a menor
extensão da uretra. Como profissional de análises clínicas, atuo diretamente na
confirmação diagnóstica dessas infecções, etapa essencial para diferenciar
quadros que exigem antibioticoterapia daqueles que representam apenas
colonização assintomática.
O
exame de urina tipo I, ou EAS, constitui a primeira linha de investigação,
fornecendo informações rápidas sobre leucocitúria, nitrito positivo, indicativo de bactérias redutoras de nitrato, e hematúria. A esterase
leucocitária positiva reforça a suspeita de processo infeccioso, embora nenhum
desses achados seja definitivo isoladamente, exigindo correlação com o quadro
clínico.
A
urocultura com antibiograma permanece o exame padrão-ouro, permitindo
identificar o agente etiológico, na maioria das vezes Escherichia coli, e
definir quais antimicrobianos apresentam sensibilidade adequada, orientando
terapêutica dirigida e evitando o uso empírico inadequado, fator relacionado ao
aumento da resistência bacteriana. Considero clinicamente significativa a
contagem igual ou superior a 100.000 unidades formadoras de colônia por
mililitro em amostra de jato médio.
Um
dos maiores desafios que enfrento é a qualidade da coleta: higienização prévia
inadequada, recipiente não estéril, ou atraso no processamento, que deve
ocorrer em até duas horas, ou sob refrigeração, são fontes frequentes de
contaminação, geradoras de resultados falso-positivos. Por isso, reforço
constantemente a técnica correta de coleta de jato médio.
Situação
que merece destaque especial é o rastreamento da bacteriúria assintomática na
gestação, momento em que a urocultura de rotina é recomendada mesmo na ausência
de sintomas, dado o risco aumentado de evolução para pielonefrite e de
complicações obstétricas, como trabalho de parto prematuro, associadas à
infecção urinária não tratada nesse grupo. Já em mulheres com infecções
urinárias de repetição, participo da investigação mais ampla, avaliando função
renal, glicemia, dado que o diabetes mellitus favorece infecções recorrentes e, quando indicado pelo urologista, orientando a correlação com exames de
imagem para afastar anormalidades anatômicas do trato urinário. Em pacientes
com quadros recorrentes ou pielonefrite associada, complemento ainda a
investigação com hemograma, proteína C reativa e função renal, avaliando a
repercussão sistêmica da infecção.
Assim,
a atuação criteriosa do laboratório de análises clínicas é determinante para o
diagnóstico preciso das infecções urinárias, para o uso racional de
antimicrobianos e para a prevenção de complicações como a pielonefrite e a
sepse urinária.
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